RELIGIÃO E ESTUPIDEZ NO BRASIL
Sílvio Santos perguntou para uma garota o
signo dela. Prontamente, ela respondeu “sou evangélica”. Sílvio riu
gostoso! Eu não ri! Eu senti ali que o Brasil vai por um caminho
perigoso.
Sim, acreditar em horóscopo é
“paganismo” para os evangélicos. Eles não podem fazer como todos os
outros brasileiros que, enfim, lêem horóscopo, sabem seus signos e se
divertem com a crença em algo que é como acreditar em premonição de uma
avó ou tia. Acredita-se sem levar a sério, ou leva-se a sério sem
acreditar.
Ter crenças mágicas é algo de quase
todos nós, por mais escolarizados que possamos ser. Faz parte de nossa
cultura. É mais ou menos como acreditar em Papai Noel quando se está
saindo da fase propriamente infantil: acredita-se e desacredita-se ao
mesmo tempo. Acreditar em alguma coisa que, conforme ficamos mais velhos
e mais escolarizados, foge do bom senso, se traz algum conforto
psicológico, não é difícil de ocorrer. É como acreditar em “trabalho”
para “trazer o amor de volta”. No desespero de causa, é um alívio
psicológico imenso poder lançar mão de um conforto psicológico não
racional. Há dezenas de confortos psicológicos desse tipo. Mas o
horóscopo nem é mais isso, é uma brincadeira mesmo.
Uns tem conforto psicológico com magias e
outros com religiões. Há os totalmente laicos, que podem conseguir isso
com a poesia. Cada um tem seu bálsamo para a alma, pois sem isso
acabamos tendo de encontrar paliativos em drogas injetáveis ou tomadas
por via oral. Nós humanos nos tornamos mais sensíveis que nossos
parentes ditos brutos, e criamos uma vida chamada de civilizada que,
enfim, não suportamos. Temos que crer em mágicas ou alguma coisa que se
aproxime delas, em diversos graus, para enfrentarmos uma sociedade que,
na verdade, como disse Weber, é “desencantada” e não permite no seu
funcionamento estrutural nenhuma mágica.
Eu posso entender as pessoas que levam a
vida fazendo simpatias contra verrugas, vendo Saci Pererê no quintal ou
rezando para Santo Antonio lhes conseguir um marido. Entendo e
respeito. Não tenho problemas em viver no meu país. Sou filósofo, mas
tenho lá meus estudos de antropologia! Todavia …
A menina evangélica, ao responder para o
Sílvio Santos, trouxe-me uma informação drástica. Ela mostrou que a sua
religião não está em disputa com outros cristianismos e, sim, em
disputa contra as religiões pagãs, as religiões mágicas. Pois, ao tomar
a Bíblia ao pé da letra, os evangélicos acabaram se colocando no âmbito
daquilo que a religião cristã, já no seu nascedouro, quis evitar, a
saber, sua classificação como religião que estaria no mesmo nível das
religiões pagãs.
A religião cristã católica (e algumas
igrejas protestantes a seguiram nisso) criou a teologia e, para
ajudá-la, manteve viva a filosofia. A teologia tinha uma idéia básica:
Deus está em um outro mundo, não nesse mundo. Ele não
pode ser conhecido, mas podemos ter contato com ele pela fé. Mas Deus
poderia ser admitido (que não é o que é conhecido e nem o que é dado
pelo contato da fé), também, por mecanismos não empíricos. Por isso
mesmo, todas as “provas” da existência de Deus, feita pelos santos
católicos que foram grandes filósofos – Santo Anselmo, Santo Agostinho e
Santo Tomás –, nunca foram provas como as da ciência moderna, é claro.
Foram demonstrações lógico-linguísticas ou então raciocínios
linguísticos. Isso garantiu à religião católica sua sobrevivência diante
dos intelectuais. Assim agiram, também, os protestantes cultos. É claro
que tanto entre os protestantes cultos quanto nos pontos mais altos da
hierarquia católica a ordem sempre foi a de fazer uma certa vista grossa
para com o modo da população não letrada entender a religião. Caso a
população precisasse de mágica, não custava aqui e ali permitir algum
milagre. Mas isso nunca se tranformou em ortodoxia.
Agora, as igrejas evangélicas,
especialmente no Brasil, romperam com isso. Como elas fazem mágica,
competem com as religiões que não estão mais em concorrência, o
paganismo! Não se trata do paganismo afro, que disputa terreno com eles,
mas valendo-se de outros mecanismos, mas o paganismo do passado, coisas
que ninguém mais toma como religião. Daí a incapacidade da garota de
entender a pergunta do Sílvio Santos. Ela foi ensinada a dizer que não
acredita em horóscopo porque é evangélica. Uma pessoa não evangélica,
desatenta, diria: “essa menina é boba?” Essa seria uma observação
válida!
Bem, mas qual o resultado disso tudo,
para nós, os que estamos de fora desse meio religioso? Devemos dar de
ombros e ficarmos quietos, respeitando nossa postura liberal-democrática
que afirma e defende a liberdade de religião no Brasil? Ou temos algo
com que nos importar?
Não estou dizendo que temos de romper
com nossa crença liberal e começar a criar dificuldades para os
evangélicos, ainda que eles não se cansem de criar dificuldades para os
brasileiros que não são evangélicos (os gays que o digam!). Longe de mim
isso. Mas temos de pensar em algo que já passou da hora de pensarmos. A
questão é a seguinte: uma das virtudes mais importantes de nosso
aparato de cognição individual é a capacidade de interpretar. Ler e
interpretar é algo ensinado na escola. É cobrado. É uma habilidade
altamente valorizada em todos os exames internacionais pois, afinal, é
algo extramemente útil na vida moderna. Mas, e se as pessoas são
educadas a não mais interpretar? E se as pessoas, já em tenra idade,
começam a ser incentivadas para eliminarem qualquer metáfora, qualquer
figura de linguagem, como irão se portar no mundo? Poderão elas
cantarem, escrever poesias, admirar um quadro, entender uma bula de
remédio? É difícil. Pois é isso que a educação evangélica faz: ela
desestimula a interpretação. Não é que ela diz que só a Bíblia deve ser
lida literalmente. Ao ensinar a menina evangélica a não entender que
pode acreditar no horóscopo em um nível que não é a da sua crença
religiosa e que, portanto, não há problema em dizer seu signo e sua
religião, as igrejas evangélicas estão indo longe demais. Estão
simplesmente emburrecendo os jovens. Estão indo para além de afirmarem
que há só uma leitura da Bíblia. Estão começando a sugerir que há só uma
leitura correta a respeito de todo e qualquer texto, de todo e qualquer
acontecimento. Isso é perigoso. Caso isso não seja revertido, podemos
ter, dentro de poucos anos, uma geração inteira incapaz de executar
tarefas simples, pois terão perdido a simples capacidade de entender o
que se lê. Haverá uma quantidade de analfabetos funcionais maior do que o
país pode suportar.
Assim, não à toa, já hoje, pegamos
alunos que não conseguem mais ler textos, mesmo tendo sido
alfabetizados. Pois ler é, sempre, uma interpretação. Isso não quer
dizer que não exista a leitura errada e a leitura certa. É claro que há.
Pois o certo e o errado dependem dos objetivos que colocamos
aprioristicamente para podermos avaliar os alunos ou avaliar qualquer
pessoa que conta uma história. Agora, quando não se está avaliando,
quando se está incentivando o aluno no aprendizado, em que ele precisa
necessariamente de interpretar, pois se ele tomar qualquer palavra no
seu sentido literal não irá entender nada, então, nessa hora, as igrejas
evangélicas atrapalham. O que elas fazem com os jovens é triturar seus
neurônios. Nesse caso, a liberdade religiosa que permite às igrejas
pregar o que querem, começa a dar frutos ruins. Pois a pregação não está
mais no âmbito do conteúdo dos assuntos, e sim no campo do estrago às
funções cognitivas da juventude.
Quando uma garota não consegue mais
entender que ela pode ler o horóscopo e acreditar nas tendências que diz
o seu signo, e que isso é uma informação em um nível do âmbito do
folclórico ou do divertido, que não se trata de algo que concorre
contra o cristianismo (ou, ao menos, não deveria ser), essa garota já
não é mais uma moça desinformada historicamente, ela é uma pessoa que
emburreceu de vez. Ela perdeu a capacidade básica para a leitura, que é
saber que a leitura possui níveis. Ou seja, um texto não tem várias
interpretações porque podemos dizer “cada cabeça uma sentença”. Se fosse
assim, teríamos apenas um relativismo banal. Um texto tem várias
interpretações porque um mesmo leitor pode criar várias visões do que
está dito, e hierarquizar os níveis dessas visões de modo a poder
usá-las nos seus discursos cotidianos segundo ocasiões e contextos.
Um ateu inteligente pode dizer “Vá com
Deus” para o filho que vai à escola. Um religioso inteligente pode dizer
para um colega que o está perturbando “ah, o diabo que te carregue”. Do
mesmo modo que um protestante fervoroso, não burro, pode dizer, junto
de uma tia católica, até de modo sério: “que sejamos abençoados pela
Virgem Maria”. Esse “jogo de cintura” ajuda as pessoas a lerem uma
história do Chapeuzinho Vermelho como um conto infantil ou como um conto
que poderia, ao mesmo tempo, nos brinda com uma versão “psicanalítica”,
onde a história seria, na verdade, a história de um homem
pedófilo ou tarado, um amante da velha, que na ausência dela gostaria de
fazer sexo também com a neta. O caçador bem poderia ser o corno da
história, marido da velha. Ler isso assim, até de forma jocosa, não
impediria ler de outra maneira. São sofisticações que vamos acumulando
nas nossas formas de colocar camadas e camadas de interpretação sobre as
leituras de nossos textos preferidos. Mas o estudante evangélico vem
castrado já de casa. Ele só pode ler uma vez, e de forma literal. Ora,
como a forma literal é um exercício de descrição, mas a própria
descrição já é feita com a interpretação do pastor desescolarizado (ou
pessimamente escolarizado, ou cheio de preconceitos) na igreja, então,
quando o jovem chega na escola e é exigido dele uma atitude mais
inteligente, ele tropeça.
Ora, se o tropeço desse jovem é
individual, tudo bem. Mas se o tropeço desse jovem é coletivo e, pior
ainda, se vários deles começam a achar que o professor ou a sociedade
culta estão contra eles, aí é hora do estado intervir. É hora do estado
pensar em convocar a sociedade para discutir o que está havendo. Pois a
nação começa a correr perigo. Em poucos anos, ninguém mais poderá ser
cidadão. Pois para ser cidadão é necessário o entendimento das leis. Com
esse tipo de jovem, atrofiado mentalmente por causa de uma estranha
fórmula de leitura que não é leitura alguma, o país todo pode estar
assinando um cheque em branco para um destino perigoso.
Se olharmos o quanto ninguém mais passa
nos exames da OAB, isso que acabei de dizer é mais preocupante ainda. É
hora dessas questões todas serem colocadas publicamente entre as elites.
É hora de encontrarmos religiosos inteligentes (eles ainda existem?)
que tenham possibilidade de ajudar-nos a senão reverter isso, ao menos
estancar essa forma de deseducação das muitas das igrejas evangélicas.
A Bíblia é sagrada? Pode ser, mas ela não foi feita para ser
sacralizada pela burrice. Ela deveria ser uma fonte de histórias morais
capazes de fazer cada um promover interpretações e interpretações, sem o
aval de pastores que se dizem iluminados. Os pastores e as igrejas não
podem ficar com o monopólio dos cérebros dos jovens. Isso pode tornar o
Brasil um país inviável. Um povo que não interpreta é um povo
imbecilizado. A cidadania depende de gente que interpreta e
reinterpreta. Só é cidadão aquele que lê a lei e pode dizer o quanto ela
é precisa e o quanto ela é vaga. Estão tirando dos nossos jovens essa
capacidade. Estão lhes roubando a cidadania. Isso é bem pior que o Golpe
de 64.
© 2011 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ


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