UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL
Folha de São Paulo
São Paulo, domingo, 13 de maio de 2007
Um outro mundo é possível
Em "Podemos Não Crer?", o filósofo Jacques Bouveresse defende que a"religião da divindade" irá perder cada vez mais espaço para a"religião da humanidade"
LENEIDE DUARTE-PLON
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS
O filósofo francês Jacques Bouveresse, professor do Collège de France,empreende em seu novo livro "Peut-On Ne Pas Croire? Sur la Vérité, laCroyance et la Foi" [Podemos Não Crer? Sobre a Verdade, a Crença e aFé, ed. Agone, 24 euros, R$ 67] uma discussão filosófica em torno dafé, do antigo antagonismo entre fé e ciência e do pretenso retorno dareligiosidade. Serve-se de autores como Nietzsche, Renan, James,Bertrand Russel, Wittgenstein e Freud, entre outros que seinteressaram pelo problema da fé e da religião. Em entrevistaexclusiva à Folha, Bouveresse admite que "existe um declínio dafé religiosa, que não é incompatível com um recrudescimento dareligião, se admitimos que o que é importante na religião não é acrença, mas a experiência religiosa".
Sobre o presidente americano George W. Bush, que expõe publicamentesuas convicções religiosas e pretende combater o "mal", Bouveressediz: "Uma política que se apóia explicitamente sobre um fundamentoreligioso pode encontrar aí dinamismo, poder e influência, mas não setorna por isso mais justa". O filósofo afirma que, na encíclica "Fé eRazão", o papa João Paulo Segundo demonstrou que, quando propõemabandonar a noção de verdade objetiva, os relativismos radicais e ospós-modernismos são inimigos tanto da fé quanto da razão e da ciência."O que constato é que hoje são os céticos e os agnósticos que tendem aaparecer como doutrinários dogmáticos e intolerantes, como seexistisse uma obrigação de crer que eles não respeitassem."
FOLHA - O filósofo Renan não identifica o progresso ao desaparecimentogradual da religião e "pensa não somente como uma possibilidade mascomo certo e inevitável, como um progresso da religião". O sr. podeexplicar o que ele via como progresso da religião?
BOUVERESSE - Renan pensava que as religiões nasceram pelo fato de ahumanidade ter necessidade de saber, num momento em que não dispunhaainda de meios suficientes. A força da ciência está justamente em sercapaz de esperar e, enquanto espera, renunciar a toda certeza prematura.Quando se torna possível saber, necessariamente a religião setransforma, mas não há nenhum motivo para pensar que ela desaparecerá,e Renan não desejava que ela desaparecesse.O que é difícil é saber o que subsistirá da religião tradicional e seisso merecerá ainda o nome de "religião". Para Renan, que identificavaa oração à especulação racional, um pensador autêntico não pode deixarde ser, no fim das contas, um homem religioso num sentido que ainda é,provavelmente, indeterminado.O progresso da religião, tal qual ele o concebia, consiste numaredução progressiva da religião ao seu núcleo racional. A únicareligião aceitável e a que ficará no fim das contas é o que podemoschamar a "religião da humanidade" (em vez da religião da divindade).
FOLHA - Tanto Freud quanto Nietzsche pensam que a crença em Deus é "amarca de uma fraqueza, mas de uma fraqueza que é quase constitutiva eque poucos homens são capazes de superar completamente". Contudo Freuddiz não pretender superestimar o poder do intelecto e pensa que apsicanálise não ameaça a crença religiosa. O que pode ameaçar a fé?
BOUVERESSE - Honestamente, não sei. Pensou-se durante um tempo,ingenuamente, que o desenvolvimento dos conhecimentos científicos irialevar ao declínio e ao desaparecimento progressivo da crençareligiosa. Mas essa previsão não parece ter sido nem um pouco confirmada.De modo nenhum o progresso das ciências tornou a humanidade maisimpermeável à crença em geral e nem mesmo às crenças que podem parecerà primeira vista irracionais e absurdas.Se julgarmos, por exemplo, estatísticas citadas por Alan Sokal[físico] e Noam Chomsky [lingüista] a propósito dos EUA, pode-sepensar que, ao contrário, a humanidade nunca foi tão crédula quantoagora, quando dispõe de meios de informação e de saber nunca antesexistentes.Essa incapacidade de diferenciar o pouco que se sabe realmente do quese gostaria de saber -mas que se sabe parcialmente ou quase nada- éjustamente uma das coisas que vejo hoje como inquietantes. Para mim, acredulidade sem limites constitui um perigo social e político real eimportante.E não é repetindo que todas as crenças têm o mesmo valor e que devemser respeitadas que vamos nos proteger desse perigo.
FOLHA - O senhor cita Habermas, que escreveu: "As tradições e asdiversas religiões conquistaram uma importância política nova,inesperada até hoje, desde a mudança marcante dos anos 1989-1990". Avolta da religiosidade e o crescimento dos fundamentalismos de todaespécie seriam, então, conseqüências do fim do comunismo e da utopiada construção do paraíso na terra?
BOUVERESSE - Não são unicamente conseqüência do desmoronamento docomunismo. Mas, na medida em que este funcionava em grande parte comouma religião da salvação de caráter leigo e profano, sua derrocadadeixou um vazio que um retorno à religião, no sentido tradicional dotermo, pode dar a impressão, certa ou falsa, de estar em condições depreencher.
FOLHA - O presidente George W. Bush não perde ocasião de afirmar suafé cristã de "born again", como os evangélicos chamam os convertidos.Em que a geopolítica dos EUA é influenciada pelo fato de Bush serevangélico?
BOUVERESSE - Chomsky tem razão ao frisar que o que se passa agora énovo e que jamais um presidente dos EUA se sentiu obrigado a aparecercomo homem religioso. Uma das conseqüências mais desastrosas disso é atendência de os EUA e seu líder se apresentarem como investidos de umamissão que consiste em defender e, se possível, fazer triunfar asforças do bem contra o mal.Ora, é uma visão das coisas e uma linguagem que, na minha opinião,deveriam ser deixadas para a religião e que não têm lugar na políticainternacional nem na política "tout court".Não é porque é o cristianismo que se expressa e se comporta dessaforma que isso se torna mais aceitável e menos perigoso.Uma política que se apóia claramente sobre fundamentos religiosos podeencontrar aí dinamismo, poder e influência, mas não se torna por issomais justa.
FOLHA - Existe hoje uma patrulha ideológica contra os não-crentes?
BOUVERESSE - Hoje, são freqüentemente os não-crentes que podem pareceratrasados (que são acusados de defender posições consideradas"cafonas", o que, hoje, é considerado o argumento mais consistente).Mas isso não é o mais preocupante, e sim o fato de que não são aspessoas que crêem cegamente que são vistas como intolerantes, mas,sim, as que não crêem e que pedem justificações e provas.No mínimo, o que se pode dizer é que a credulidade leva maisfacilmente ao dogmatismo e à violência do que o ceticismo.
FOLHA - No seu livro, o senhor cita alguém que diz que "se há umchoque entre a fé e a ciência e a razão, ele só pode ser um conflitomais aparente que real e mais artificial que intrínseco entre duasformas de inteligência e de racionalidade diferentes, nãonecessariamente incompatíveis". O senhor está de acordo?
BOUVERESSE - Como deixei há muito tempo de crer, não tenho opiniãosobre essa questão e nem sinto necessidade de ter. Limito-me aassinalar que a Igreja Católica tem que fazer uma escolha. A questãojá estava colocada no século 19.Para pensadores católicos reformistas e progressistas, como HenriLacordaire [1802-1861] ou Alphonse Gratry [1805-1872], era mais oumenos evidente que não poderia haver antagonismo real entre as luzesda fé e as da razão e da ciência. Para eles, os adversários da fé sãotambém da razão e da lógica. Era mais ou menos o que pensava JoãoPaulo Segundo, se me baseio na encíclica "Fé e Razão".Mas pode-se pensar -- e a Igreja católica poderia ser tentada a isso,mesmo se, no momento, não segue esse caminho -- que a religião sebaseia mais eficazmente no sentimento e na emoção do que na razão eque esse é o alicerce seguro e durável sobre o qual ela pode repousar,independentemente do que diga a ciência.
FOLHA - Wittgenstein se angustiava com sua profunda necessidade decrer e o sentimento doloroso da impossibilidade de consegui-lo. De quedepende a necessidade de crer?
BOUVERESSE - Em todas as pessoas, a necessidade de crer depende danecessidade de ter respostas a certas perguntas, como por exemplo a dosentido da vida, à qual, para Wittgenstein, a ciência não está apta aresponder e também não procura responder.Mas a insuficiência da ciência nesse ponto não constitui certamenteuma prova a favor da verdade da religião em geral e menos ainda dasreligiões existentes. E, como enfatiza Freud, o fato de a crençaresponder a uma necessidade e a um desejo (o de que as coisas que elaafirma são verdadeiras) não aumenta suas chances de ser verdadeira, oque, queiramos ou não, constitui o ponto crucial, pelo menos para osque crêem ainda na importância da verdade.Wittgenstein não confunde jamais a aspiração à fé com a fé efetiva einsiste particularmente no fato de que, se a crença pode transformar avida, também é verdade que pode ser necessário mudar primeiramente devida para alguém conseguir crer.
FOLHA - Wittgenstein tem uma bela frase para falar da crençareligiosa. Ele diz que ela não é, como a sabedoria, uma coisa à qual agente pode ser levada pela reflexão, e que ela está mais próxima dapaixão. O senhor está de acordo?
BOUVERESSE - Estou de acordo sobre o papel determinante da emoção e dapaixão, das quais eu tenho tendência a desconfiar mais que ele (nessecaso preciso e em geral).Mas o que acho mais ainda interessante é a distinção radical que elefaz entre a religião e a superstição, e a maneira como ele expressaisso. Para ele, o que faz, se adotamos o ponto de vista de Freud, aforça das representações religiosas, a saber os medos e as esperançasde consolação e de retribuição que estão ligadas a isso, não está nodomínio da religião propriamente dita, mas da superstição.Na religião de Wittgenstein, se essa é a palavra que convém utilizar,não há lugar para o medo e a esperança. É uma religião da vidaterrestre, que identifica a eternidade com a vida no presente, semreferência ao além e praticamente sem transcendência. É nesta vida quese deve efetuar a reconciliação com a morte, e não depois dela.
FOLHA - O senhor escreve que "é possível que a humanidade deixe um diade ter necessidade de acreditar na imortalidade e na maioria dascrenças religiosas". Ainda estamos longe desse dia?
BOUVERESSE - Não sei o bastante para poder lhe responder. Mas, ajulgar pela pesquisa recente feita pela revista "Le Monde desReligions", a percentagem de pessoas que se dizem católicas e que, noentanto, não acreditam numa vida após a morte é surpreendentementeelevada. Melhor será não perguntar se acreditam ou não na ressurreiçãodos corpos, que também é um artigo do credo apostólico.Certamente existe um declínio da fé religiosa, que não é incompatívelcom um recrudescimento da religião, se admitimos que o que éimportante na religião não é a crença, mas, sim, a experiênciareligiosa. Daí a dizer que as crenças religiosas em geral vãodesaparecer e em quanto tempo isso se dará, eu não me arriscaria aformular um prognóstico.
FOLHA - Na sua opinião, um homem que crê pode ser livre ou sualiberdade é relativa quando está sob a tutela de uma religião?
BOUVERESSE - A questão que você levanta é a da liberdade das crençasem geral e das crenças religiosas em particular. Essa é uma questãofilosófica crucial e sobre a qual as opiniões podem divergircompletamente.Não se pode, claro, ser responsabilizado pelo que se crê, o que épressuposto por toda "ética da crença", senão quando se dispõe, aomenos em certa medida, da possibilidade de aceitar ou de rejeitarlivremente a crença. Mas, como em qualquer caso, a liberdade não operano vazio e nunca pode ser total.A crença pode ser condicionada por uma multidão de fatores históricos,psicológicos, sociais, culturais etc., sem ser propriamente umanecessidade.
FOLHA - O apego à vida terrestre sem a perspectiva de um além tornanecessariamente mais difícil a aceitação da morte?
BOUVERESSE - Não necessariamente. Há pessoas para quem o fato derenunciar a qualquer idéia de vida além da morte torna a vida maispreciosa, mais interessante e mais bela, mas, igualmente, a morte maiscompreensível e aceitável.Era, penso, o caso de Wittgenstein. E também é o tipo de idéiadefendido em alguns textos de Gottfried Keller, um escritor que eleadmirava particularmente e que provavelmente o influenciou muito.
FOLHA - Em que o senhor crê?
BOUVERESSE - É uma pergunta impossível de ser respondida em poucaslinhas e cujo interesse me parece principalmente documental. Escrevium livro sobre o problema da crença ou da fé em geral e o da féreligiosa em particular, mas eu não escreveria um livro do tipo "emque creio", que pertence a um gênero que não me é simpático e não meatrai.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1305200710.htm


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