domingo, março 23, 2008

SOU ATEU, SOU MINORIA, QUERO COTAS

SOU ATEU, SOU MINORIA, QUERO COTAS
Por Carlos Mauro Brasil Cherubini

Aquele menino fez um gol e levantou sua camisa mesmo sabendo que iria tomar um cartão amarelo. Era a final do mundial interclubes. O menino bonzinho, que segundo consta não sucumbiu às tentações da Humanidade, não sucumbiu às drogas, à bebida, às mulheres, foi escolhido o melhor do mundo em sua profissão, tem tido uma vida de príncipe e, quando largar o futebol, pretende ser pastor. É uma bela vida. "Una bela persona". Diria que é um anjo entre nós. Na sua camisa estava escrito em inglês: "I belong to Jesus".

"Queria eu poder andar na rua com uma camisa escrita: 'Eu não creio em Deus'

Eu me ofendi. E agora? Depois disso o que fazer? Eu sou ateu. Sem meias palavras, não creio nem minimamente na existência de algo divino que nos criou ou nos guia. Queria eu poder andar na rua com uma camisa escrita: "Eu não creio em Deus".

Não posso. Para falar a verdade, segundo uma pesquisa recentemente publicada neste jornal a partir deste texto, eu perdi a chance de ser presidente do meu país. Um ateu é mais discriminado do que um adorador do demônio, vocês acreditam? O FHC, desde seu primeiro mandato, acreditava não em Deus, mas que ser ateu é ser um paria.

Segundo a pesquisa, somente 13% pensariam em votar em um ateu para a Presidência. Sou branco, homem, heterossexual, classe média, católico meramente por batismo obrigatório, portanto, graças a Deus (literalmente) , agora que me declarei ateu sou minoria. Decididamente minoria e decididamente discriminada.

Assim, quero cotas. Cotas nos cargos disponíveis no meu trabalho, cotas nas câmaras de vereadores, nas assembléias legislativas, nos concursos públicos. Aa mulheres as têm politicamente e estão à minha frente na preferência de voto para presidente por ser eu um ateu. Então, quero cotas, cotas e mais cotas.

"O Estado que se diz laico tem que me pagar pelas bancadas religiosas que procura para fazer acordos demoníacos nas assembléias legislativas "

Além disso, quero ter o direito de por na cadeia todos aqueles que me agredirem verbalmente por ser um ateu, que não me aceitarem. Pois que me discriminando estarão praticando um crime inafiançável como é inafiançável e horrendo o anti-semitismo ou qualquer outra forma de discriminação religiosa.

Ah, quero indenizações milionárias pela perseguição que tenho sofrido há anos pela sociedade, que me impôs meu batizado, o curso de noivo, o batizado de minha filha, os casamentos, as missas em que fui obrigado a ir, os chatos dos religiosos que me perseguem com suas ignorâncias científicas e suas certezas mitológicas, me tratando como se eu fosse um imbecil ou pior, um portador de uma doença contagiosa e mortífera.

O Estado que se diz laico tem que me pagar pelas bancadas religiosas que procura para fazer acordos demoníacos nas assembléias legislativas, pelos bispos e pastores do mensalão. Tem que me pagar pelas oportunidades de emprego que perdi por me dizer ateu. Neste caso, deveria me pagar em dobro porque produziu gerações e gerações ignorantes, quando não analfabetas, que não têm o menor apego ao conhecer, ao ler, negligenciando a educação do povo que, ignorante, precisa cada vez mais de heróis e deuses.

Deveria pedir um aposentadoria vitalícia do governo, isso sim, como receberam aqueles que durante o governo militar foram meramente perseguidos, não mortos ou torturados ou exilados, porque estes, diferente daqueles, merecem mais que indenização. Talvez com cotas ou indenização eu me sinta melhor e o governo também, afinal se adiantou para os outros casos, conosco - ateus - não deve ser diferente.

O GLOBO, 10-01-2008
http://oglobo. globo.com/ opiniao/mat/ 2008/01/10/ sou_ateu_ sou_minoria_ quero_cotas-32795847 5.asp

terça-feira, março 18, 2008

LIVROS "INSPIRADOS POR DEUS" ?

POR QUE AS PESSOAS ACREDITAM EM LIVROS "INSPIRADOS POR DEUS" ?

A curiosidade em saber de onde veio e o medo do após-morte eram comuns para nosso irmão ancestral. Para suprir essa necessidade em conhecer o que estava além de sua cognição, apareceram os “porta-vozes” dos deuses. Eram geralmente feiticeiros que tiravam as dúvidas sobre o “outro mundo” tão temido pelos companheiros da tribo.

Eles diziam entender a voz dos trovões, e seu público, com pouquíssima capacidade de discernimento, acreditou que eles tinham a mensagem dos deuses. Ter o privilégio de falar com uma divindade gerou frutos, e logo apareceram reis e profetas que diziam falar com os Espíritos Invisíveis. O mais famoso deles foi Moisés, o profeta bíblico que trouxe os Dez Mandamentos para seu povo, depois de uma conversa com Javé, o deus do Antigo Testamento.

Hoje ainda, a maioria da população acredita que Deus orientou profetas a falar por ele e expor seu desejo por escrito. Entretanto, uma pequena parcela da humanidade não acredita que Deus tenha orientado alguém a deixar registrado em livros seu pensamento.

Sabemos que nas classes onde há menos acesso à informação científica e filosófica, é maior o número de pessoas que acreditam nas Escrituras. Mas o que muito me deixava abismado, era por que, entre os cultos, também havia aqueles que acreditavam quase que literalmente na Bíblia. Isso me levou a enumerar alguns motivos que poderiam levar uma pessoa moderna, bem informada, a acreditar que Deus tenha instruído profetas no passado na confecção da Bíblia.

1. Desconhecimento do Antigo Testamento. Quem o lê, verá um Javé irritado, guerreiro, assassino, racista, sexista, xenófobo, cruel. Nada que lembre um Deus sábio e generoso. Ou alguém acredita que leis que mandam matar noivas sem sinais de virgindade, filhos desobedientes e quem segue outra religião podem vir de um deus sábio e amoroso?

2. Hipnose milenar. O ser humano é facilmente induzido a acreditar nos mais velhos e nas autoridades. Mesmo os devotos cultos, não vêem nada de mais, no fato de o deus do Antigo Testamento lançar pragas contra gente inocente. Ou afogar até crianças num dilúvio por que se irritou com os pecados dos homens.

3. O medo. O receio de um possível castigo no além, por não crer num livro que nos afirmam ser totalmente inspirado por Deus, leva o devoto a criar um muro mental que o impede de raciocinar por si mesmo;

4. Acobertamento. O devoto é induzido pelas autoridades religiosas a ver apenas o lado bom da Bíblia: Há alguns provérbios bons e úteis, alguns salmos confortadores, e acima de tudo, a mensagem de amor do carismático Jesus, bem diferente do Javé do Antigo Testamento.

5. Desconhecimento das fontes. O Antigo Testamento e as lendas da criação do mundo, Adão e Eva e o Dilúvio são mitos copiados de tradições da Mesopotâmia. Moisés, se existiu, inspirou-se no rei Hamurabi, babilônico, para convencer o povo hebreu que havia recebido as tábuas da lei de Javé. E de Akenaton, faraó egípcio, Moisés tirou a idéia de um deus único que escolhe um povo como seu amado e preferido. O mito do castigo no pós-morte é uma antiga maneira dos sacerdotes ludibriarem o povo e mantê-lo sob suas leis. O inferno para a doutrina cristã é o lugar para onde vão os que não seguem o Cristo. É mais um mito copiado dos antigos para atemorizar e prender fiéis nos bancos da Igreja. O mito do salvador que nasce de uma virgem já era usado pelas religiões mesopotâmicas, egípcias, gregas, etc. Embora Jesus nunca ter dito ser Deus, após sua morte deram-no caráter deificado, para conseguir adeptos à seita que se iniciava, também entre os gentios, que já conheciam muitos salvadores que vieram de virgens fecundadas por algum deus. O mito da ressurreição ao terceiro dia, foi copiado da tradição de antigos deuses que morriam e ressuscitavam, geralmente ao terceiro dia. Alguns nomes: Hórus (Egípcio), Mitrha (romano), Krishna, Dionísio, etc.

O saber livra as pessoas das algemas da superstição. E nos livra de sermos submissos a grupos que dizem deter a palavra divina. De posse do conhecimento, somos livres em decidir em que acreditar.

Fernando Bastos – http://pensarporsi.zip.net/

domingo, março 09, 2008

OBRIGADA MEU DEUS UMA PINÓIA

OBRIGADA MEU DEUS UMA PINÓIA!!!!
Divina de Jesus Scarpim
5.3.08

Existe uma oração que diz coisas do tipo “Obrigado, meu deus, por eu ter duas pernas enquanto muitos não podem andar; obrigado, meu deus, por eu ter dois olhos enquanto muitos não podem ver...” e por aí vai. Os religiosos devem conhecer bem e com certeza muitos a sabem de cor. É uma oração famosa, imagino, já a ouvi até musicada. O nome da tal oração eu não sei, não me lembro; assim como não sei o nome de todas as muitas orações do mesmo tipo que já li, já ouvi e já recebi muitas vezes pela internet em formato pps, com música clássica e até com canto gregoriano adicionado. Não sei seus nomes, nem presto muita atenção a eles porque tenho um nome genérico para todas, um nome que para mim soa muito mais adequado: ORAÇÃO DO FILHO DA PUTA.

Na minha cabeça não cabe esse conceito religioso de agradecer a deus por algo que tenho, que é básico e que sei que milhões de pessoas no mundo não têm. Não posso, não sei, não consigo agradecer a deus por ter, por exemplo, um teto sobre minha cabeça enquanto milhões de pessoas no mundo todo, muitas delas aqui mesmo na minha cidade, não têm onde morar e dormem pelas calçadas. Não sei, não posso, não consigo agradecer a deus por ter um casaco, um cobertor, uma cama, enquanto milhões de pessoas no mundo morrem de frio todo inverno. Não consigo, não posso, não sei agradecer a deus por poder escolher entre almoçar carne ou peixe enquanto milhões de pessoas no mundo morrem de fome...

Isso é algo que eu não entendo e não entendo mesmo! Como pode alguém pensar, sequer pensar, em agradecer pela desgraça alheia? Sim pois, para mim, se agradeço pelo que tenho e milhões não têm, estou agradecendo por milhões não terem. Em que sou eu superior a milhões de pessoas para me sentir no direito de ter o que esses milhões não têm? Que direito eu tenho de me achar melhor do uma criança que morre de fome? Que direito eu tenho de me achar melhor do que uma mulher que vê seu filho morrendo sem poder ajudar? Que direito eu tenho de me achar melhor do que um pobre que morre de frio? Por que então devo agradecer a deus por dar a mim o que não deu a todos?????

Não, decididamente não posso fazer a oração do filho da puta e me sentir bem com isso, não posso dizer que deus é bom, acreditar que Jesus me ama e ler como verdades todas aquelas frasezinhas clichês que os religiosos dizem, colam como adesivo nos carros e estampam nas camisetas. Quando leio aquela que está pregada em muitos carros que passam por mim: “Deus é fiel”, não consigo deixar de perguntar: Fiel a quem? Fiel a quê? Como professora de português, sei que falta um complemento nominal aí, qual é ele? E mais, quase sempre dou uma risadinha por dentro e digo outra frase que ouvi não sei onde: “Fiel é cachorro.”

O que sinto por saber que tenho teto enquanto muitos não têm, que tenho agasalho enquanto muitos não têm, que tenho comida enquanto muitos não têm, que tenho saúde enquanto muitos não têm, é raiva! Sinto raiva, não alegria, não agradecimento; sinto raiva. Raiva de o ser humano ser esse bicho nojento que acumula bens e deixa que outros seres humanos morram sem nada, raiva de o ser humano ser esse bicho nojento que consegue roubar de quem não tem nada e sentir-se superior àqueles de quem ele rouba, raiva de o ser humano ser esse bicho nojento que consegue matar outro ser vivo por lucro, por fama, por poder e até por esporte. Sinto muita raiva de o ser humano ser esse bicho nojento, e sinto vergonha de pertencer a essa raça, de ser eu também um bicho nojento.

E por causa dessa raiva, para não estender essa raiva a deus, que me dizem ser o responsável, o criador dessa raça nojenta à qual pertenço, prefiro acreditar que deus não existe. Que não existe um ser tão horrível a ponto de criar esse circo de horrores que é a vida, esse palco de morte que é a natureza, esse poço escuro e tenebroso que é a alma humana, alma que o homem acredita perfeita, que o faz capaz de se sentir bom, nobre e perfeito enquanto mata, prende, subjuga, devora.

Se deus existisse, eu teria que odiá-lo!

Fonte: http://vida-cadela.blogspot.com/