quarta-feira, fevereiro 20, 2008

OS PRAZERES DA CARNE VERMELHA

Os prazeres da carne vermelha
Verdade ancestral

Fonte: drauziovarella.ig.com.br/artigos/carne_introducao.asp

A espécie humana sempre comeu carne. Nas cavernas, nossos antepassados davam preferência a ela, como concluíram os estudos de suas arcadas dentárias. É provável que o homem só se conformasse com outros alimentos quando a caça rareava. Guiado pelo instinto do paladar, corria atrás da carne por seu alto valor calórico: um grama de gordura produz 9 calorias, um grama de açúcar ou proteína, 4 calorias. Por milhões de anos, mesmo quando o homem buscou na agricultura as calorias necessárias para manter a família, a preferência pela carne resistiu. E assim permanece. Não é fácil subverter ordens estabelecidas em milhões de anos. A genética é mãe castradora. A desnutrição sempre foi endêmica. Em todas as civilizações conhecidas, comida abundante e variada era privilégio. Há apenas um século e meio, a batata da Irlanda foi dizimada por uma praga, e um milhão de pessoas morreram de fome. O número de mortos dá idéia da monotonia da dieta irlandesa da época. Na Europa, a fome resistiu à passagem da Segunda Guerra; era preciso ser rico para comer carne todo dia. Mesmo hoje, fartura de alimentos é privilégio de um ou outro país. O passado de fome crônica moldou o consumo de energia da espécie humana. A pressão seletiva favoreceu a sobrevivência dos que comiam o máximo que agüentavam, toda vez que encontravam comida. Entre eles, levaram vantagem reprodutiva os que tinham capacidade de armazenar, sob a forma de gordura, as calorias ingeridas em excesso. Ser dono de uma reserva adiposa ao redor do corpo era decisivo quando chegavam as vacas magras. Os magrinhos ficavam inferiorizados na hora de enfrentar jejuns prolongados. Num mundo de predadores, o caçador enfraquecido vira caça no dia seguinte. A seleção natural só tem olhos para o indivíduo. A ela não interessa o futuro de qualquer espécie. Haja vista quantos milhões delas acompanharam os dinossauros nas extinções em massa. Não existe grandiosidade nos desígnios da evolução. Ela segue curso inexorável, mero resultado da soma aritmética de pequenas conquistas individuais que conferem microvantagens na hora da reprodução. A evolução não moveu um dedo para impedir que o homem moderno, filho de caçadores e coletores que se matavam por comida, inventasse a poltrona e o disque-pizza. Como resultado dessa ruptura com a tradição de escassez permanente de alimentos vieram a obesidade, diabetes, hipertensão e os infartos do miocárdio.

Maior incidência de infartos

Depois da Segunda Guerra, nos países industrializados, foi descrita uma epidemia de ataques cardíacos em homens de 50 anos e mulheres na menopausa. Essas mortes criaram um clamor público: o que estaríamos fazendo de errado com nossas vidas para merecer tal punição?

Bode expiatório

Habituados a interpretar fenômenos biológicos com lógica religiosa, os homens associaram o prazer ao pecado. Sexo e paladar, os maiores prazeres conhecidos, são os principais suspeitos de qualquer doença. Como no caso dos infartos não parecia razoável culpar o sexo, praticado à larga pelo homem desde tempos ancestrais, a suspeita caiu sobre a alimentação. Estávamos nos anos 60, era da contracultura, da valorização da vida campestre em oposição à sociedade industrial. Era moda acreditar na alimentação vegetariana produzida sem fertilizantes químicos como condição de saúde. A suspeita, então, caiu em cheio sobre a carne vermelha, o alimento preferido pela maioria das pessoas. Afinal, gostamos de peixe, mas precisa ser bem feito; e de frango, dependendo do tempero; mas carne vermelha, de qualquer jeito é bom. Não é preciso ciência no preparo. Basta pôr na brasa e jogar sal grosso. O cheiro de peixe na panela faz perder o apetite, o de frango é neutro, mas o de carne junta saliva na boca. É reflexo ancestral.

Descoberta surpreendente

Ao redor de 1785, Edward Jenner, o descobridor da vacina contra a varíola, ao autopsiar um paciente morto após dores no peito seguidas por um ataque cardíaco fulminante, notou algo: “Depois de examinar as partes mais importantes sem encontrar nada que pudesse ser responsável pela morte súbita ou pelos sintomas que a precederam, estava fazendo um corte na base do coração quando o bisturi bateu em algo tão duro e granuloso que fez um dente na lâmina. Olhei para o teto, que estava velho e se desprendia, achando que um pedaço de gesso tivesse caído de lá. Mas, examinando melhor, pude ver a causa verdadeira: as coronárias tinham se transformado em canais ósseos”. Estava descoberta a causa das dores no peito (anginas) e dos infartos do miocárdio: as placas endurecidas que obstruem as coronárias, as artérias que irrigam o músculo cardíaco.

Colesterol e Aterosclerose

Em 1904, o biólogo F. Marchand usou o termo aterosclerose para definir a natureza das placas obstrutivas. Em 1910, o bioquímico A. Windaus demonstrou que essas lesões continham 6 vezes mais colesterol livre do que a parede da artéria normal, e 20 vezes mais colesterol esterificado. Em 1912, um médico da armada russa - Nikolai Anichkov - induziu, pela primeira vez, aterosclerose em coelhos alimentando-os com gema de ovo e colesterol puro. Depois de algumas semanas de dieta, a aorta de 90% dos animais estudados começou a exibir as mesmas placas acinzentadas das coronárias das vítimas de infarto. Como 10% dos coelhos nessa dieta nunca desenvolviam placas, Anichkov concluiu acertadamente que o colesterol não era o único responsável pelo aparecimento delas. Em cachorros e ratos, ele não repetiu resultados semelhantes. Esses animais não desenvolviam placas nas artérias por mais colesterol que ingerissem. Não seria sensato pensar que o coelho, animal vegetariano, desenvolvesse aterosclerose por não estar evolutivamente habituado a lidar com colesterol na dieta? E que ratos e cachorros, animais que comem de tudo, têm longa convivência com o colesterol e, portanto, mais resistência à formação de placas? Detalhe tão relevante passou despercebido para Anichkov e para a maioria dos cientistas que vieram depois dele.

Bom e mau colesterol

Os trabalhos de Anichkov, publicados em russo, ficaram esquecidos até os anos 50 quando foi descoberta a ultracentrífuga, aparelho que gira em velocidades vertiginosas, a ponto de precipitar em camadas, por ordem de densidade, as gorduras e proteínas colocadas em seu interior. Com a ultracentrífuga, o bioquímico americano John Gofman publicou, na revista Science, um estudo mostrando que a gordura do sangue dos coelhos alimentados com colesterol era composta por duas frações principais: uma que ia para o fundo do tubo de ensaio centrifugado, e outra, de menor densidade, que ficava na superfície. Estavam descobertos o HDL e o LDL, respectivamente. Gofman percebeu, ainda, que essa fração LDL encontrava-se elevada nos coelhos que desenvolviam placa, mas nos 10% de animais que não a formavam, apesar da dieta rica em colesterol, a maior parte da gordura era transportada sob a forma de HDL. Havia, então, um colesterol “bom” (o HDL) e outro “ruim” ( o LDL). Anos depois, o mesmo grupo usou a centrífuga mais potente da época para separar as frações de colesterol contidas em dois grupos de homens. No primeiro, foram estudados indivíduos que haviam tido e se recuperado de ataques cardíacos. No segundo, indivíduos saudáveis. Os autores verificaram que os níveis de LDL eram bem mais altos nos homens “cardíacos” e os de HDL, nos normais. Exatamente como nos coelhos, concluíram.
A descoberta do LDL como agente da aterosclerose aparentemente explicava por que algumas pessoas têm ataque cardíaco apesar de apresentar níveis normais de colesterol total. Entretanto, como o custo das ultracentrífugas para separar frações de colesterol eram proibitivos, pouca atenção foi dada ao HDL e ao LDL no sangue humano, por mais de uma década. Nos anos 60, quando surgiram métodos químicos para dosar frações de colesterol sem necessidade de ultracentrifugação, a determinação dos níveis de HDL e LDL virou rotina. Para completar o cenário no qual eclodiria a guerra ao colesterol, prestes a ser decretada no mundo industrializado, é fundamental citar outros dois trabalhos realizados nos Estados Unidos. Em 1952, o grupo do especialista em nutrição, L. Kinsey, demonstrou que dietas compostas de vegetais e baixos teores de gordura animal reduziam o colesterol na maioria dos seres humanos. Em seguida, um grupo chefiado por E. Ahrens, da Universidade Rockfeller, foi mais longe: as gorduras vegetais reduziam o colesterol graças à insaturação de suas moléculas. Os animais aumentavam seus valores por terem moléculas saturadas ( com mais átomos de hidrogênio).

Guerra à gordura animal

Os ingredientes básicos estavam reunidos para começar uma das maiores confusões intelectuais sobre a saúde do homem do século XX. Se existia um colesterol “bom” e outro “mau”, as gorduras deveriam ser divididas em “boas” (insaturadas, derivadas principalmente dos vegetais e dos peixes) ou “más” ( saturadas, como as da carne vermelha e dos derivados de leite). Esses trabalhos tiveram enorme impacto. Como a liderança mundial da ciência americana já era inconteste nessa época, a crença nas conclusões citadas se disseminou. A carne vermelha, os laticínios e a gema de ovo foram execrados. Eram os assassinos do homem moderno! A indústria dos alimentos de baixos teores de gordura animal floresceu.

Conclusões precipitadas

Quando analisamos as informações científicas que serviram de base para aconselhar mudanças tão drásticas no estilo de alimentação, no entanto, ficamos absolutamente surpresos: elas não permitem tirar as conclusões que foram apregoadas!
Embora 50% dos infartos do miocárdio ocorram em pessoas com colesterol normal, não há dúvida de que pessoas com níveis mais altos de LDL no sangue correm risco maior de doença coronariana. Está demonstrado, também, que a redução do consumo de gordura animal faz cair os níveis de LDL. O que não está comprovado é que ingerir menos gordura animal diminua a probabilidade de ter ataque cardíaco ou de viver mais tempo.
Em outras palavras: até hoje, nenhum estudo epidemiológico para avaliar as conseqüências de uma dieta rica ou escassa em gordura animal na longevidade humana ou na prevalência de infarto do miocárdio conseguiu demonstrar relação de causa e efeito.
Por exemplo, o célebre Nurse´s Health Study acompanhou, por 20 anos, 50 mil enfermeiras do país que respondiam questionários periódicos sobre hábitos alimentares e problemas de saúde. O estudo, conduzido pela Escola de Saúde Pública de Harvard, envolve o maior número de participantes acompanhados até hoje em qualquer trabalho sobre o tema, por tão longo período de tempo e com tanto rigor. A quantidade de gordura presente nas refeições diárias das 50 mil escolhidas foi tabulada com as enfermidades apresentadas por elas no período. Os resultados não demonstraram relação entre o número de calorias ingerido sob a forma de gordura animal e a incidência de doença cardíaca. Esses dados obtidos pelo grupo de Harvard foram confirmados em dois outros estudos: o Health Professionals Follow-up Study e o Nurses´Health Study II. Os três estudos juntos envolveram 300 mil pessoas seguidas por mais de dez anos. As conclusões são as mesmas:
1) Dietas ricas em gorduras monoinsaturadas (como o óleo de oliva) reduzem o risco de doença cardíaca;
2) Dietas ricas em gorduras saturadas (como a carne vermelha) aumentam muito pouco o risco de doença coronariana, quando comparadas com dietas ricas em carboidratos, como pão, macarrão e doces. Outra surpresa dos cientistas foi a constatação de que as gorduras presentes na margarina são bem menos saudáveis do que as contidas na manteiga.

De hipótese a dogma

Os três estudos citados custaram ao National Institute of Health (NIH) que os financiou, US$100 milhões. Apesar do gasto, nenhuma agência de saúde do governo deu publicidade aos resultados finais, muito menos sugeriu que a orientação geral de cortar a gordura animal devesse ser revista.
A respeito dessa atitude oficial, Walter Willet, em entrevista à Science, revista oficial da Academia Americana de Ciências, disse: “É escandaloso”. E questionou a política das agências de saúde americanas: “Agora, eles dizem que há necessidade de provas de alto valor científico para derrubar as recomendações vigentes de cortar gordura na dieta, o que é irônico, porque nunca tiveram provas de valor para estabelecê-las”. Num dos artigos mais completos sobre o tema, na Science de 30 de março de 2001, o autor, Gary Taubes, um dos editores da revista, afirma: “A convicção de que gordura na dieta mata, e sua evolução de hipótese a dogma, é um exemplo no qual políticos, burocratas, a mídia e o público desempenharam o mesmo papel que os cientistas e a ciência.”
Taubes analisou a incidência de doença cardíaca nos Estados Unidos nos últimos 30 anos. Desde o início da década de 70, quando foram divulgadas as recomendações oficiais para reduzir a ingestão de gordura animal no país, a mortalidade por ataques cardíacos de fato caiu. Como as calorias derivadas da gordura animal representavam 40% do total de calorias ingeridas nos anos 1980 e hoje correspondem a 34%, as autoridades da área de saúde insistem em que a redução das mortes deva ser atribuída aos novos hábitos alimentares americanos.
Uma análise mais detalhada desses números, no entanto, foi publicada na revista de maior circulação mundial entre os clínicos, The New England Journal of Medicine, em 1988. Nela, os autores atribuem a queda dos índices de mortalidade por doenças cardíacas à melhora dos cuidados médicos no tratamento, não à redução do número de casos da doença.
As estatísticas da American Heart Association dão suporte à observação anterior: entre 1979 e 1996, o número de procedimentos empregados no tratamento de doenças cardíacas aumentou de 1,2 para 5,4 milhões de intervenções/ano. Difícil atribuir à diminuição de gordura animal a responsabilidade pela queda dos índices de mortalidade, quando pontes de safena se tornaram rotineiras.
Uma das idéias a consolar as autoridades americanas que estabeleceram as normas dietéticas atuais foi a de que um grama de gordura produz 9 calorias, enquanto a mesma quantidade de carboidrato ou proteína produz 4. Então, mesmo que a recomendação de reduzir gordura animal falhasse na diminuição da incidência de doença cardíaca, ainda estaria fazendo um bem, pensaram elas: menos carne vermelha, menos calorias ingeridas, menor o número de casos de obesidade, hipertensão e diabetes.
Foram ingênuas. Não levaram em conta a natureza humana. A retirada de um alimento altamente calórico da dieta não assegura necessariamente redução do número total de calorias ingeridas, porque ele pode ser substituído por outros menos calóricos, mas ingeridos em quantidades maiores (carboidratos, principalmente). A quantidade de energia diária que o corpo exige para funcionar é decidida através de mecanismos inconscientes e cobrada prosaicamente de cada um de nós na forma de fome. Dominar o apetite é tarefa inglória.
No já citado estudo, entre as 50 mil enfermeiras, metade foi exaustivamente orientada a consumir uma dieta na qual as calorias derivadas de gordura não ultrapassassem 20% do total ingerido diariamente. Depois de três anos nesse regime espartano, as mulheres de fato haviam perdido peso: um quilo, em média. Nos últimos 20 anos, enquanto o consumo de gordura animal caiu 6% (de 40% para 34%) na população americana, a prevalência de obesidade aumentou de 14% para mais de 22%. Ao lado dela, cresceram os casos de diabetes e hipertensão arterial. Esses dados conduzem a estas suspeitas:
1) Será que dietas mais pobres em gordura não levariam à obesidade?
2) A diminuição da atividade física provocada pelo aumento da massa corpórea não aumentaria o risco de doença cardíaca?
3) Não estaria no aumento do número de casos de diabetes e hipertensão ligados à obesidade parte da explicação para os ataques cardíacos do homem moderno?

A questão está longe de ser resolvida. Dizer que uma dieta pobre em gordura deve ser adotada porque se não prolongar a vida, mal não fará, não tem fundamento científico. E pode nem ser verdade.

O metabolismo do colesterol

Como tantos médicos, passei anos aconselhando meus pacientes a reduzirem os níveis de colesterol pela dieta alimentar. A experiência foi frustrante. Descontados os casos esporádicos, só com grande esforço pessoas muito disciplinadas conseguiram baixar as taxas de 10% a 20%, no máximo. Enquanto isso, outros se esbaldam e o colesterol não sobe. Vi um senhor que comia uma dúzia de ovos por dia havia mais de trinta anos e tinha colesterol total de 160 (pelos padrões atuais, recomenda-se que sejam mantidos valores abaixo de 200). Encontrei uma mulher de 40 anos com colesterol de 280. Quando lhe disse que precisava reduzir gordura animal, respondeu-me que era vegetariana havia doze anos. Isso quer dizer que o metabolismo do colesterol pouco respeita as virtudes da pessoa. Nossa capacidade de interferir com a concentração de gordura no sangue é limitada pelos fatores genéticos. Tanto que mesmo a propalada influência do colesterol na incidência de doença coronariana é simplesmente discreta. Na referida matéria da Science, Gary Taubes relaciona seis estudos publicados na década de 1980, que ilustram as observações anteriores. Quatro deles, realizados nas cidades de Honolulu, Chicago, Framingham e em Porto Rico, compararam o tipo de dieta com a incidência de doença coronariana. Nenhum demonstrou que dietas de baixo conteúdo de gordura animal reduzissem o número de ataques cardíacos ou aumentassem a longevidade. Um quinto estudo, Multiple Risk Factor Intervention Trial (MRFIT), custou US$115 milhões. Os participantes foram aconselhados a adotar simultaneamente várias medidas para reduzir o risco de doença cardíaca: deixar de fumar, controlar hipertensão com medicamentos e cortar gordura da dieta. A análise dos dados finais mostrou que a redução de gordura não fez qualquer diferença na incidência de doença coronariana, mesmo entre hipertensos e fumantes. Ao contrário: entre os que adotaram dieta com menos gordura, a mortalidade geral (todas as causas reunidas) foi mais elevada.

Ação de medicamentos específicos

O sexto estudo começou em 1984 e foi conduzido na Universidade da Califórnia a um custo de US$140 milhões - o LRC Coronary Primary Prevention Trial. Nele, foram selecionados apenas homens de meia-idade com colesterol elevado (valores mais altos do que os encontrados em 95% da população geral). Os participantes foram divididos em dois grupos: o primeiro recebeu um medicamento para diminuir o colesterol, a colestiramina; o segundo, comprimido de talco (placebo). Os resultados foram os seguintes:
1) A colestiramina causou redução significante dos níveis de colesterol;
2) O medicamento reduziu o número de ataques cardíacos de 8,6% no grupo-placebo para 7,0% nos tratados;
3) A administração da droga fez cair a mortalidade por infarto do miocárdio: de 2,0% no grupo-placebo para 1,6% no grupo tratado.

Por incrível que pareça, a demonstração de que reduzir os níveis de colesterol por uma intervenção química como essa (que provocou 0,4% de diminuição na mortalidade) foi extrapolada para o teor de gordura na dieta. Se abaixar o colesterol à custa de colestiramina fez cair a incidência de doença coronariana, reduzir seus níveis com dietas pobres em gordura terá o mesmo efeito, disse o coordenador administrativo do estudo. A repercussão nos Estados Unidos foi imediata. Veio na forma de campanhas públicas e numa matéria de capa da revista Time intitulada: “Perdão, é verdade. O colesterol mata”. A conclusão, resultante de meias- verdades científicas, ganhou a imprensa. Com o advento das estatinas, drogas capazes de reduzir dramaticamente os níveis de colesterol, estudos confirmaram que o uso desses medicamentos diminui discretamente a incidência de doença coronariana e prolonga a vida daqueles que têm risco alto de infarto do miocárdio. Qualquer pessoa com um mínimo de discernimento científico, entretanto, sabe que a eficácia de uma abordagem medicamentosa sobre qualquer parâmetro bioquímico do sangue jamais pode ser extrapolada para intervenções dietéticas sem a realização de estudos comparativos que envolvam milhares de participantes acompanhados criteriosamente durante muitos anos, para que o número de eventos finais adquira significância estatística. O NIH calcula que um estudo com tais características custaria pelo menos US$1 bilhão, quantia que nenhum país quer investir.

Dados epidemiológicos

Muitas das idéias, que deram origem às normas para cortar gordura animal na dieta, nasceram da epidemiologia comparada. Desde os anos 1950, sabemos que finlandeses e escoceses, por exemplo, que ingerem dietas ricas em leite e carne vermelha, são vítimas de altos índices de ataques cardíacos. A dieta tradicional japonesa, rica em peixe, teria efeito protetor e explicaria a baixa incidência de ataques cardíacos no Japão.
Tal lógica, no entanto, sempre encontrou sérias contradições:
1) Os franceses, por exemplo, consomem muita manteiga, creme de leite, queijos e carne, mas apresentam baixos índices de doença coronariana. Esse fenômeno, o “paradoxo francês”, tem sido atribuído ao consumo de vinho tinto, fatores genéticos, tamanho das porções da cozinha francesa, etc.;
2) Mais contundente do que o paradoxo francês, ainda, é o caso dos povos do sul da Europa, que vivem no Mediterrâneo. Com a melhora das condições econômicas após da Segunda Guerra, essas populações fizeram como outras na mesma situação: aumentaram o consumo de carne, leite e queijos. O que aconteceu com a mortalidade por doença cardíaca? Diminuiu! Caiu proporcionalmente ao crescimento do consumo de gordura. O mesmo está acontecendo com a ocidentalização atual da dieta no Japão, ao contrário do que se supôs;
3) Num trabalho realizado na cidade francesa de Lyon, 605 pessoas que sobreviveram a ataque cardíaco prévio foram tratadas com medicamentos para reduzir os níveis de colesterol e divididas em dois grupos de acordo com a dieta adotada. O primeiro foi aconselhado a manter uma dieta semelhante à recomendada aos americanos, com redução drástica da quantidade de gordura animal. O segundo, a adotar uma dieta do tipo mediterrâneo: mais cereais, pão, legumes e frutas, peixe, sem exagero de carne vermelha. Nas duas dietas, o conteúdo de gordura animal ingerido diariamente variou de forma significativa: os que adotaram o padrão mediterrâneo consumiram em média quantidades maiores. Apesar disso, os níveis de colesterol total, HDL e LDL, permaneceram idênticos. Quatro anos mais tarde, os resultados indicavam a ocorrência de 44 ataques cardíacos na dieta americanizada, contra 14 na dieta mediterrânea. Classicamente, no caso dos povos do Mediterrâneo, o benefício tem sido atribuído ao uso do óleo de oliva. Essa conclusão foi aceita sem questionamento pelos médicos e divulgada para o grande público como verdade científica. Tanto que a maioria das dietas para reduzir colesterol prescreve uma ou duas colheres de azeite de oliva diárias. A influência do óleo de oliva na prevenção de infarto, porém, está longe de ser esclarecida. Voltemos ao artigo da insuspeita Science. Dimitrios Trichopoulos, epidemiologista de Harvard, sugere que o paradoxo dos povos mediterrâneos talvez esteja além do óleo de oliva e pergunta: para que esses povos usam o azeite? Para temperar saladas e cozinhar legumes. Como essas populações ingerem cerca de meio quilo de vegetais por dia, em média, quem garante que não sejam eles os responsáveis pela proteção? Pelo mesmo raciocínio poderíamos perguntar se finlandeses e escoceses, povos que vivem em lugares gelados, inóspitos para a produção de vegetais, não teriam tantos infartos pela falta destes na dieta, e não pelo excesso de gordura.

Gordura X Carboidratos

Gary Taubes, no site do Departamento de Agricultura americano, na seção Nutrient Database for Standard Reference, encontrou a composição de uma chuleta (T-bone) rodeada por uma camada generosa de meio centímetro de gordura. De acordo com os dados, depois de grelhada a chuleta é composta por porções iguais de gordura e proteína: metade de cada. O autor caracteriza assim a composição da parte gordurosa da chuleta: “51% dela é gordura monoinsaturada, da qual virtualmente tudo é o saudável ácido oléico - o mesmo do óleo de oliva; 45% é gordura saturada, pouco saudável, mas um terço dela é ácido esteárico, componente no mínimo inofensivo. Os restantes 4% do total são gordura poliinsaturada, que também melhora os níveis de colesterol”. A análise da composição deixa claro que uma chuleta não chega a ser uma arma tão mortal quanto nos fizeram crer. Taubes faz as contas: “Bem mais do que metade - e talvez até 70% - do conteúdo gorduroso contribuirá para melhorar os níveis de colesterol. Os 30% restantes provocarão aumento do LDL (colesterol “mau”), mas também aumentarão o “bom” colesterol (HDL). “Se em lugar da chuleta a pessoa ingerisse pão, macarrão ou batata”, continua Taubes, “seus níveis de colesterol ficariam piores, embora nenhuma autoridade de nutrição tenha coragem de dizer isso publicamente.

Neste momento, a relação gordura versus carboidrato na dieta ocupa posição central no debate entre pesquisadores. A célebre pirâmide nutricional que as autoridades de vários países - entre eles o Brasil - adotaram, com a base larga para indicar os vegetais que devem ser ingeridos em abundância, a parte intermediária referente aos carboidratos que podem ser ingeridos com liberalidade e o topo da pirâmide que corresponde à gordura animal a ser consumida de forma muito restrita, tem sido questionada. Alguma coisa precisamos comer. Se não for carne, o que será? A lógica é cristalina: dificilmente substituímos o bife do jantar por tomates ou cenouras. A carne costuma ser trocada por carboidratos. Dietas com baixo teor de gordura animal quase sempre são fartas em pão, macarrão, tortas e doces. Por razões mal conhecidas, temos mais dificuldade para limitar a ingestão de carboidratos do que a de gordura. Não é fácil encontrar alguém capaz de comer duas picanhas no almoço, mas pão, macarrão e doce ingerimos em quantidades muito maiores. E, pior, digerimos esses alimentos bem mais rapidamente. Na digestão dos carboidratos, o pâncreas é solicitado a produzir insulina para quebrá-los em açúcares mais simples que vão ser estocados nos depósitos naturais do organismo. Enquanto os açúcares contidos em frutas e vegetais aparecem na circulação sangüínea em concentrações que aumentam lentamente à medida que vão sendo absorvidos pelo tubo digestivo, alimentos como pão, macarrão, arroz e doces dão origem a picos na circulação imediatamente depois da ingestão. Tais picos súbitos de carboidratos obrigam o pâncreas a produzir quantidades excessivas de insulina para quebrá-los e estocá-los rapidamente. Uma vez armazenados, a energia associada a eles não está mais disponível, e o corpo sente fome outra vez. Além de aumentar o risco de diabetes pela estimulação exagerada do pâncreas, dietas com alto conteúdo de carboidratos provocam aumento de triglicérides e de LDL (o “mau” colesterol), e redução dos níveis de HDL. Esta tríade de eventos bioquímicos é conhecida como resistência à insulina (ou síndrome X) e está intimamente ligada ao aumento do risco de doença coronariana.

Tiro pela culatra

Assim, fica claro que as recomendações atuais para evitar gordura animal nas refeições são, no mínimo, desprovidas de fundamento científico. Mais grave, podem induzir a parcela da população com acesso ilimitado aos alimentos a ingerir quantidades maiores de carboidratos, que podem ser responsáveis pelo aparecimento de diabetes nos geneticamente predispostos, aumento de triglicérides e de LDL, redução do HDL e, agora sim, aumento do risco de morrer de ataque cardíaco. O infarto do miocárdio é exemplo clássico de patologia multifatorial. Sua incidência depende principalmente da herança genética e de vários fatores de risco: sexo, idade, tabagismo, hipertensão, obesidade, diabetes, vida sedentária, níveis de colesterol e triglicérides, além do estresse da vida urbana. É ingenuidade imaginar que a simples eliminação ou redução de um único componente da dieta interferira no risco de sofrer de uma enfermidade assim complexa. São tantos os mal-entendidos nessa área, que mesmo a existência atual dessa epidemia de infartos pode ser questionada. Quem garante que esse acontecimento é recente, se nos séculos que nos precederam as pessoas morriam de doenças infecciosas muito antes de atingir 50 anos? E as poucas que viviam mais, que tipo de assistência médica recebiam? Existe algum estudo que permita comparação da mortalidade por doença cardíaca entre o século passado e o atual?

Implicações diretas e indiretas

A questão do colesterol divide os cientistas atuais e envolve interesses econômicos. Basta pensar na quantidade de alimentos com baixos teores de gordura oferecidos. Ou no custo do atendimento médico relacionado com o controle policialesco do colesterol. Ou, ainda, no interesse econômico gerado pelas estatinas, drogas utilizadas na clínica para reduzir os níveis de colesterol, que rendem US$ 4 bilhões por ano em vendas apenas no mercado americano. As mais rígidas intervenções dietéticas não costumam provocar queda superior a 10% nos níveis de LDL - enquanto as estatinas reduzem 30%, mesmo com dietas permissivas. Sendo assim, por que não considerarmos desprezível o impacto da dieta em pessoas com níveis de LDL normais ou pouco acima da normalidade? Para os que apresentam LDL elevado não seria sensato medicá-los, permitir uma dieta mais humana e recomendar que larguem de fumar, percam peso, controlem a pressão, aumentem a atividade física e reduzam o estresse diário? A redução de gordura na dieta, além de estimular o consumo de carboidratos com provável piora do perfil lipídico, pode interferir com mecanismos bioquímicos muito importantes e mal conhecidos. Por exemplo, pessoas com colesterol total muito baixo (abaixo de 160) apresentam risco maior de hemorragia cerebral. E, mais grave, quanto mais abaixo desse nível estiver o colesterol maior a chance de morrer por outras causas. O citado E. Ahrens, autor de trabalhos fundamentais a respeito do metabolismo do colesterol, diz que comer menos gordura pode provocar alterações profundas no corpo, muitas das quais nocivas. O cérebro, por exemplo, é 70% gordura, que serve basicamente para abrigar os neurônios. O próprio colesterol e outras gorduras são componentes essenciais das membranas das células. Mudanças bruscas na proporção de gorduras saturadas e insaturadas na dieta podem modificar a composição dessas membranas. Essas alterações interferem com os mecanismos de transporte de todas as substâncias que entram ou saem da célula: fatores de crescimento, hormônios, bactérias, vírus e agentes cancerígenos. Como conseqüência, da composição gordurosa da membrana celular dependem processos como nutrição, resposta imunológica, produção de hormônios, condução de estímulos através dos neurônios, envelhecimento e apoptose, a morte celular programada.

Recomendações necessárias

Como lidar com informações tão contraditórias? À luz dos conhecimentos atuais, é mais sensato pensar o seguinte:
1) Aqueles com LDL-colesterol muito elevado provavelmente se beneficiem do corte no consumo de gordura animal. As recomendações oficiais são de que, neles, o consumo de calorias derivadas da gordura não ultrapasse 10% do total de calorias ingeridas. Não esquecer, no entanto, que uma interferência dietética dessa radicalidade costuma abaixar apenas 10% os níveis de LDL, o que pode não ser suficiente para colocar a pessoa fora de risco. Se alguém com 250 de LDL faz uma dieta vegetariana, e esse número cai para 225, o risco persiste apesar da queda. Nesse tipo de situação parece mais sensato usar medicamentos que reduzem as taxas de LDL em 30% e permitir certa liberalidade dietética.
2) Para a grande maioria das pessoas portadoras de níveis normais ou pouco aumentados de LDL, é fundamental deixar claro que o impacto dos níveis de colesterol no risco de doença cardíaca é pequeno. O efeito da dieta nos níveis de colesterol também. Não há demonstração científica de que se essas pessoas cortarem ou acrescentarem gordura animal na dieta, terão maior ou menor risco de infarto, ou de morrer mais cedo.
3) Embora não haja respostas definitivas, vale a pena apostar numa dieta rica em vegetais, que talvez ajude a prevenir ataques cardíacos. Se não o fizerem, pelo menos são alimentos ricos em micronutrientes essenciais, ajudam o funcionamento do aparelho digestivo e têm conteúdo calórico mais baixo. É importante lembrar que reduzir o total de calorias ingeridas parece ser, em toda a escala animal, a única estratégia capaz de retardar o envelhecimento e aumentar a longevidade. O corpo exige um número mínimo de calorias diárias, não interessa se retiradas da cenoura ou do bacon. Uma dieta sem excesso de calorias ajuda a prevenir diabetes, hipertensão, obesidade, resistência à insulina, reumatismo, impotência sexual, ataque cardíaco, derrame cerebral, câncer e outras doenças degenerativas.
Não está bom?

A IMORALIDADE BRASILEIRA

A Imoralidade Brasileira
Por Alex Castro

Tenho um amigo mórmon. Ele é brasileiro, estudou comigo na Escola Americana, foi pra Utah fazer universidade, casou com uma gringa e ficou por lá. Outro dia, encontrei os dois no centro. Estavam ambos a passeio no Brasil, ela tinha vindo conhecer a terra do marido.

Perguntei a ele o que ela estava achando e ele me veio com essa: É, ela gostou, mas encurtamos um pouco a viagem, estamos voltando mais cedo, ela não suportou tanta... E ele olhou em volta... imoralidade, sabe como é? Ela é muito religiosa...

Eu fiquei feliz de ver como ela compreendia bem a realidade brasileira e concordei, empolgado: Sua esposa está coberta de razão! O que fode o Brasil é essa imoralidade. Ter que ver criança esmolando pela rua, carro bloqueando cruzamento, guarda recebendo propina, congresso seis meses por ano de recesso, é realmente insuportável. A única coisa que salva, pelo menos aqui no Rio, é ver a mulherada de fio dental na praia, os decotes, os rebolados, esse clima de sexo no ar!

E o meu amigo corrigiu: Não, Alexandre, você não entendeu. Somos religiosos. Esse negócio de injustiça, desigualdade, pobreza, isso não nos incomoda. Deus quis assim, no outro mundo, tudo será corrigido. O que nos incomoda mesmo são essas bundas todas de fora que não estão machucando ninguém...

Ah, então tá.

O MAL DAS RELIGIÕES

O mal das religiões

FOLHA DE S. PAULO, 06-04-2007
RICARDO BONALUME NETO
ATEU

Era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones e estudou num colégio católico liberal. Por isso fiquei chateado ao ouvir John Lennon em "Imagine" cantar como seria bom o mundo sem religião. Demorou para cair a ficha. Aos poucos o adolescente começou a entender a história e o papel das religiões no mundo. Como elas causam guerras, reprimem a sexualidade, prejudicam o avanço da ciência. Inquisição, talebãs, criacionismo, neoevangélicos movidos a dinheiro dos pobres: a lista de barbaridades praticadas pelas religiões organizadas e por seus seguidores mais fanáticos é imensa. Sobraria "deus" (com minúscula). Afinal, o ente "superior" não pode ser diretamente vinculado às bobagens feitas em seu nome. Mas para ques erve deus? Desta vez John Lennon não me chateou quando cantou que "deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor". Ah, me dizem, quando você estiver muito doente, vai encontrar deus. Bem, ainda não aconteceu, nem quando estive internado com pneumonia. Fiquei num quarto com um colega com câncer no pulmão. Quando foi feito o teste para saber se tinha a doença, ele pegou o envelope das mãos do médicoe correu para uma igreja para abri-lo ali. Não adiantou. Para explicar o mundo, deus é desnecessário. Mesmo que a ciência nunca explique tudo, é melhor ser humilde e reconhecer limitações do que procurar uma explicação fácil e reconfortante: "Foi deus".

RICARDO BONALUME NETO, 46, é repórter da Folha
http://www1. folha.uol. com.br/fsp/ especial/ fj0605200716. htm

SANTO DE CASA FAZ MILAGRE ?

Santo da casa faz milagre?
Carlos Pompe

Joseph Ratzinger, que já veio ao Brasil como chefe da Inquisição, voltou ao país como papa Bento XVI, para canonizar um brasileiro e afinaras fileiras mais conservadoras da igreja que lidera. É um novo lance daofensiva que vem desenvolvendo contra a ciência e o pensamento crítico, questionador e progressista, com o entusiástico apoio dos setores mais retrógrados da sociedade. O grande destaque popular de sua vinda é acanonização do brasileiro beato Frei Antônio de Santa'Ana Galvão, pois normalmente, as canonizações são feitas emRoma.

Frei Galvão viveu de 1739 a 23 de dezembro de 1822. O Vaticano estác onsiderando que fez milagre. Ou melhor, como explica o dirigente daConferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e bispo auxiliar de SãoPaulo, Dom Odilo Scherer, “os santos não fazem milagres mas Deus, somente.Dizemos, então, que o milagre é obtido pela intercessão dos santos, e não por um poder que eles próprios têm”.

Em 1934, monsenhor Martins Ladeira, arcipreste da Catedral de São Paulo, iniciou uma coleta de assinaturas visando a beatificação de Frei Galvão. Mas não há santo sem milagre – São Tomás de Aquino é exceção, como veremos adiante. No fim do século, duas brasileiras alegaram ter recebido milagres de frei Galvão: Daniela Cristina da Silva, 21 anos, e Sandra Grossi deAlmeida, 37. A primeira ficou 28 dias internada num hospital, em 1997, quando tinha 4 anos, caindo em coma devido a complicação com hepatite A e outras doenças. Foi tratada com ciência e profissionalismo no Instituto de Infectologia Emilio Ribas. A segunda tinha problemas no útero e havia sofrido três abortos espontâneos quando engravidou de seu filho Enzo, que nasceu com saúde, graças à atenção profissional e médica recebida na Maternidade Pro Matre Paulista, também em São Paulo. Relegando ao deus-dará o reconhecimento ao atendimento recebido, as brasileiras e a Igreja acordaram que elas foram objeto de um acontecimento com “uma impossibilidade científica de explicação” e isto com um “parecer propriamente ‘científico’”, conforme explicou o padre Sergio Tani, que, para dar credibilidade ao seu ponto de vista, informa ser Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz em Roma, Professor de Direito Canônico na Pontifícia Faculdade de Teologia N. Sra.da Assunção e no Instituto de Direito Canônico “Pe. Dr. Giuseppe Benito Pegoraro”, Defensor do Vínculo no Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de São Paulo (as maiúsculas, majestáticas, são todas dele, Tani). É interessante que, no século XXI, ainda se fale em milagres e que, acuada pelo desenvolvimento do conhecimento científico, a Igreja agora invada as instituições hospitalares para reivindicar como milagre o que ali acontece (também está sendo atribuída a madre Tereza de Calcutá uma cura alcançada num hospital hindu).

A palavra “milagre” remete ao latim “miraculum”, um substantivo que indica prodígio, fato extraordinário, e ao verbo, também latino, “miraro”, com o sentido de admiração, espanto. Os religiosos sempre trataram de dar uma interpretação miraculosa às coisas acontecidas e não compreendidas. EmJosué, um dos Livros Históricos do Antigo Testamento, está registrado:(12-14) “No dia em que Javé entregou os amorreus aos israelitas, Josué falou a Javé e disse na presença de Israel: ‘Sol, detenha-se em Gabaon! E você, lua, no vale de Aialon!’ E o sol se deteve e a lua ficou parada, até que o povo se vingou dos inimigos. No Livro do Justo está escrito assim:

‘O sol ficou parado no meio do céu e
um dia inteiro ficou sem ocaso.
Nem antes, nem depois
houve um dia como esse,
quando Javé obedeceu à voz de um homem.
É porque Javé lutava a favor de Israel’”.

Mas a existência de milagres é também milenarmente contestada. O eclético Marco Túlio Cícero, que viveu de 106 a 43 antes de Cristo, esclarecia: “Nada acontece sem causa e nada acontece a não ser que possa acontecer; quando o que pode acontecer acontece de fato, isso não pode ser considerado milagre”.Nos primórdios do cristianismo, Aurélio Agostinho, que viveu de 13 de novembro de 354 a 28 de agosto de 430 e é considerado um dos maiores vultos da filosofia cristã, conceituava milagre como “o que é obscuro ou parece racional e transcende as expectativas do observador”. Quase um milênio depois, Tomás de Aquino (1225-74), doutrinou na sua “SumaTeológica” que “devem chamar-se propriamente e em absoluto milagres aquelas coisas que são feitas pelo poder de Deus, fora da ordem natural das coisas” (a expressão latina, tão ao gosto do atual papa, é “contraconsuetum cursum naturae”). Tomás de Aquino não obrou milagres e a Igreja ficou constrangida em santificá-lo sem que ele houvesse violado as leis da natureza. Contudo o papa João XXII, em 1323, o canonizou, argumentando que cada questão que ele abordou e “resolveu” a favor dos dogmas católicos eram “milagres”...

Por séculos a Igreja impôs seu domínio através da violência e torturou e queimou quem discordasse de idéias como essas. Mas mesmo entre pensadores que não professavam o materialismo, a existência de milagres era contestada. David Hume (1711-76), por exemplo, escreveu que um milagre“pode ser rigorosamente definido como a transgressão de uma lei danatureza resultante de uma volição da Divindade ou da interposição de um agente invisível”, mas alertava ser impossível acreditar em milagre porque ele só existe com base no testemunho humano. Hume considerava que “a desonestidade e o disparate são mais prováveis que a alteração do curso natural da natureza” (que o douto padre Tani não nos leia...). Outro filósofo idealista, Søren Aabye Kierkegaard (1813-55), foi peremptório aoescrever no seu Diário (X, A, 373) que “o milagre continua sendo o que é: artigo de fé”.

Já o materialista empedernido Richard Dawkins não deixa dúvidas do que pensa, como é de seu feitio, e no livro “O relojoeiro cego”, de 1986,considera que “os eventos que comumente denominamos milagres não sãosobrenaturais, e sim parte de um espectro de eventos naturais mais oumenos improváveis”. Milagre é, portanto, para quem acredita, uma exceção e superação das leise da força da natureza por intervenção divina. Como se vê, Frei Galvão, além de ser um intermediário de Deus para contrariar a ordem natural dascoisas, curando pessoas que estavam recebendo tratamento médico, ao ser considerado santo em pleno Brasil contraria também o dito popular que reza que “santo da casa não faz milagres...”

A FORÇA DO PENSAMENTO

A força do pensamento
DRAUZIO VARELLA

A montanha ir até Maomé é tão improvável quanto o Everest surgir naminha janela

EM 40 anos, nunca vi alguém se curar com a força do pensamento. Cometia asneira de pronunciar essa frase numa entrevista e enfrentei a irados que pensam de maneira oposta.A palavra ira, neste contexto, deve ser levada ao pé da letra. Entreos revoltados, não faltou quem me chamasse de organicista, incrédulo,prepotente, defensor de interesses corporativistas e até de imbecil.Dada a riqueza dos adjetivos a mim dedicados, vou explicar o que pensoa respeito desse tema.Antes de tudo, deixo claro que não estou em desacordo com a metáforabíblica de que a fé remove montanhas. Não faltam exemplos de pessoasem situações adversas que, por meio da força de vontade e do empenhoem busca de um ideal, realizaram proezas inimagináveis. Concordo,também, que a vontade de viver é de importância decisiva na luta pelasobrevivência. Sem ela, sequer levantamos da cama pela manhã.Nos anos 1970, tive um paciente recém-casado, portador de câncer detestículo disseminado nos pulmões. Haviam acabado de lançar acisplatina, nos EUA, quimioterápico que revolucionaria o tratamentodesse tipo de tumor. Com dificuldade extrema, o rapaz conseguiudinheiro para a passagem e bateu na porta do Memorial Hospital de NovaYork, sozinho, sem falar inglês, com 200 dólares no bolso para custearestadia e um tratamento que não sairia por menos de 20 mil.Voltou para o Brasil três meses mais tarde, curado. Poderíamos dizerque outro em seu lugar, sem a mesma determinação, estaria vivo atéhoje? Lógico que não. A fé pode remover montanhas, como reza a metáfora.Mas, aqui se insere a questão do tal pensamento positivo. Os que serevoltaram por ocasião da entrevista, baseiam-se em exemplos como essepara defender a teoria de que eflúvios cerebrais benfazejos têm o domde curar enfermidades.E é nesse ponto que nossas convicções se tornam inconciliáveis. Paramim, se Maomé não for à montanha, a montanha vir a Maomé é tãoimprovável quanto o Everest aparecer na janela da minha casa.Insisti com o rapaz para se tratar em Nova York, porque não havia nemhá um só caso descrito na literatura de desaparecimento espontâneo demetástases pulmonares de câncer de testículo. Todos os que morreram dadoença antes do advento da quimioterapia seriam homens pulsilânimes,desprovidos do desejo de viver demonstrado por meu paciente, portantoineptos para subjugar suas metástases às custas da positividade dopensamento?A fé nas propriedades curativas da assim chamada energia mental temraízes seculares. Quantos católicos foram canonizados porque lhes foiatribuído o poder espiritual de curar cegueiras, paraplegias,hanseníase e até esterilidade feminina? Quantos pastores evangélicosconvencem milhões de fiéis a pagar-lhes os dízimos ao realizarfaçanhas semelhantes diante das câmeras de TV?Por que a energia emanada do pensamento positivo serve apenas paracurar doenças, jamais para fazer um carro andar dez metros ou um aviãolevantar vôo sem combustível?Esse tipo de crendice não me incomodaria se não tivesse um ladoperverso: o de atribuir ao doente a culpa duplicada por havercontraído uma doença incurável e por ser incapaz de curá-la depois detê-la adquirido.Responsabilizar enfermos pelos males que os afligem vai muito além defazê-lo nos casos de câncer de pulmão em fumantes ou de infartos domiocárdio em obesos sedentários.No passado, a hanseníase foi considerada apanágio dos ímpios; atuberculose, conseqüência da vida desregrada; a AIDS, maldição divinapara castigar os promíscuos. Coube à ciência demonstrar que duasbactérias e um vírus indiferentes às virtudes dos hospedeiros eram osagentes etiológicos dessas enfermidades.A crença na cura pela mente e a ignorância a respeito das causas depatologias complexas como o câncer, por exemplo, são fontesinesgotáveis de preconceitos contra os que sofrem delas. Cansei de vermulheres com câncer de mama, mortificadas por acreditar que o nódulomaligno surgiu por lidarem mal com os problemas emocionais. E de ouvirfamiliares recriminarem a falta de coragem para reagir, em casos depacientes enfraquecidos a ponto de não parar em pé.Acreditar na força milagrosa do pensamento pode servir ao sonho humanode dominar a morte. Mas, atribuir a ela tal poder é um desrespeito aosdoentes graves e à memória dos que já se foram. [i]

http://www1. folha.uol. com.br/fsp/ ilustrad/ fq0906200733. htm

terça-feira, fevereiro 19, 2008

ESQUECENDO DEUS

Esquecendo Deus
Hélio Schwartsman

Juro que, depois dessa coluna, deixo o tema religião de lado por uns tempos. O problema é que, quanto mais tento explicar meu raciocínio, menos compreendido sou, a julgar pelo crescente número de e-mails que recebo.

Retomemos a questão desde os seus prolegômenos. Não sou contra a religião assim como não sou contra a literatura, o sexo e as drogas. Todos eles podem ser fonte legítima de prazer para quem os usa. E não dá para negar que muita gente encontra conforto junto à religião. Alguns experimentam até mesmo o êxtase. Há ainda quem dela se valha para formar e cimentar um círculo de relacionamentos sociais, mais ou menos como um clube. Para nenhuma dessas funções, entretanto, é necessário que ela seja verdadeira. Aliás, afirmar que determinada religião é falsa é uma asserção com a qual a esmagadora maioria da humanidade tende a concordar, desde que o juízo não se refira a seu próprio credo.

Para que a prática religiosa se mantenha legítima, isto é, mais benigna do que maligna, é necessário antes de mais nada que ela não sirva de pretexto para imposições e violência. Se alguém, mesmo contra todas as evidências, quer acreditar que vinho se converte em sangue, e a hóstia, em carne, tem o direito de fazê-lo. O que não dá para aceitar é que, em nome dessa e de outras idéias às vezes exóticas, derive um código moral e busque empurrá-lo goela abaixo de toda a sociedade, incluindo os que não partilham das mesmas crenças, as quais, vale insistir, têm uma base empírica extremamente frágil, para dizer o mínimo.

E, infelizmente, a história está repleta de guerras e massacres cometidos em nome da religião. Mesmo hoje, em pleno século 21, muitas vezes é a fé que define aqueles a quem podemos matar. Terroristas jihadistas têm o "dever" de matar infiéis. Sunitas e xiitas no Iraque estão, em nome da verdadeira sucessão do profeta, autorizados a dizimar-se uns aos outros. Nós, no Ocidente, lançamo-nos na missão sagrada de semear a democracia no mundo islâmico. Fazemo-lo, é claro, atirando bombas. Aos que inadvertidamente morrem no processo chamamos eufemisticamente de "danos colaterais". Em geral, são muçulmanos árabes, africanos ou asiáticos.

Não estou, evidentemente, atribuindo à religião toda a violência de que o homem é capaz. Ao contrário, estou convicto de que, não fosse a fé, encontraríamos outros pretextos para nos massacrar, como a coloração da pele, o idioma de origem ou alguma outra bobagem do tipo a mão que usa para escrever. É inegável, entretanto, que a religião serviu e está servindo de motor à barbárie. Nesse contexto, e dada a virtual impossibilidade de simplesmente acabarmos com os credos, a medida óbvia que se impõe é conter o fervor religioso das pessoas. Se todos forem um pouco mais relapsos na implementação de mandamentos que cobram a destruição dos infiéis, teremos um mundo mais pacífico.

Também não nego que a religião esteja na origem de coisas, senão boas, pelo menos interessantes, na música, na arquitetura, na pintura e, acrescento por minha conta e risco, na sutil arte metafísica. Só que vale aqui o mesmo argumento da violência. Não é porque essas realizações se deram sob o signo da religião que não teriam ocorrido sem ela, que, de resto, esteve com o homem desde que ele desceu das árvores. Daí não decorre que ela seja a responsável direta por todas as obras humanas, sejam elas boas ou más.

Isso nos leva a uma pergunta interessante. Por que diabos a religião existe? A resposta é mais ou menos óbvia para o crente: para honrar a Deus e pedir-Lhe que interceda por nós. Curiosamente, é entre agnósticos, ateus e outros que buscam uma abordagem científica do fenômeno religioso que a questão se torna controversa. "Grosso modo", há os que lhe reconhecem algum valor, como o de reforçar os laços sociais entre as pessoas numa comunidade, e os que a consideram um mero efeito colateral --e adverso-- da circuitaria cerebral humana. O biólogo Richard Dawkins, por exemplo, aposta que o pendor humano pelo sobrenatural é o resultado inopinado do módulo cerebral que nos torna crianças obedientes, acreditando, sem nenhum espírito crítico, nas histórias que nossos pais nos contam. Especialmente no passado darwiniano, obedecer cegamente aos mais experientes ajudava a manter-nos longe de perigos. Outros autores, como o filósofo Daniel Dennett, elaboram um pouco mais a questão, sugerindo a concorrência de outros módulos neuronais, como a tendência a ver agentes onde só existem sombras (o seguro morreu de velho) e a inventar explicações, ainda que infundadas, para tudo --característica que, embora nos faça pagar alguns micos, pode contribuir para a sobrevivência do grupo.

Sei que nós, seres imperfeitos, não devemos questionar as decisões do Altíssimo, mas convenhamos que não faz muito sentido para um Deus onipotente e benevolente revelar-se na forma de colecionador de prepúcios para os judeus e, para os maias, como um espectador ávido por sacrifícios humanos. A hipótese de que deuses são criações humanas explica muito melhor a universalidade do fenômeno religioso do que a teoria das "sementes de verdade" propugnada pelo catolicismo.

Alguns de meus interlocutores partiram dessa universalidade da religião para concluir que ela é necessária e benéfica. Até admito que, no passado, ela possa ter ajudado. Já não é o caso. A religião acabou tomando rumos que a tornaram uma força mais maligna do que benigna, atuando muito mais para separar as pessoas --e de forma violenta-- do que para uni-las. Um dos responsáveis por essa transformação foi o advento do monoteísmo, tão celebrado por judeus, cristãos e muçulmanos.

É claro que os povos já guerreavam muito antes de Abrão deixar a cidade de Ur, na Caldéia. Só que os combates não costumavam vestir as roupagens da religião. Aliás, nem havia necessidade. Uma das vantagens do politeísmo é que ele favorece o livre intercâmbio de deuses. Um babilônio e um grego tinham inúmeras diferenças, mas, se havia algo que podia uni-los, era justamente identificar as semelhanças entre Ishtar e Afrodite, que se tornavam apenas diferentes nomes da mesma deusa. Com o monoteísmo, veio o exclusivismo. Deus não apenas pedia para ser louvado como passou a exigir a destruição de seus, digamos, concorrentes. Estava aberta a avenida para a intolerância religiosa, que até hoje segue contabilizando vítimas. Nesta semana mesmo, o Vaticano soltou um novo documento que volta a proclamar sua superioridade sobre as igrejas ortodoxas e as "seitas" protestantes. "Quod erat demonstrandum".

A forma como encaramos Deus é, felizmente, mutável. Ishtar, Afrodite, Mitra, Wotan e vários outros panteões foram esquecidos. O próprio Iahweh do Antigo Testamento se tornou, de algum modo, menos raivoso: a grande maioria dos judeus e dos cristãos já não apedrejam aqueles que levam Seu santo nome em vão. É um progresso. E, já que todos os sinais são de que a religião não desaparecerá tão cedo, resta esperar que ela continue se modificando para assumir formas menos destrutivas. Não creio que isso ocorrerá no horizonte de nossas vidas, mas quem sabe no dos netos dos netos de nossos netos.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult510u311097.shtml

O PAPA QUE DEU À LUZ

O papa que deu à luz

Em 15 de agosto de 858, o soberano pontífice foi acometido de violentas dores no ventre. Eram dores de parto. Só então se soube que João era, na realidade, Joana.
por Ivan Matagon

Roma, 17 de julho do ano da graça de 855. Leão IV, papa havia oito anos, entregava a alma a Deus. Para substituí-lo no trono de São Pedro, os cardeais escolheram um clérigo tão piedoso quanto sábio, um certo João, o Inglês, assim chamado por causa da origem de sua família. O acontecimento era importante: por um lado, um estrangeiro tornava-se papa, o que não era habitual; por outro, havia sido escolhido por unanimidade, o que era ainda mais raro.

João VIII, monge do mosteiro de São Martinho, em Roma, era pouco conhecido. Tendo chegado à Cidade Eterna alguns anos antes, havia se destacado pela grande discrição e pela aura de uma vida dedicada aos estudos e à fé. E então, quando no século IX o papado ficou entregue às mãos das poderosas famílias romanas, ele tinha a vantagem de não pertencer a nenhum clã, de não tomar o partido de nenhum dos lados. Sua vida exemplar e o que dele se sabia o apresentavam mais como um intelectual devoto do que como um político.

João VIII era um intelectual. No mosteiro de São Martinho, reunia em torno de sua cátedra um auditório cada vez mais importante. Sua eloqüência, seu amor pela teologia e pelas ciências, tanto as sagradas quanto as profanas, o tinham levado a discussões públicas com os maiores eruditos da época. Ele nunca fora pego de surpresa, ou vencido. Ganhou o título de sábio dos sábios. Sua fama ultrapassou, assim, os muros do mosteiro.

Mas tão logo foi eleito, o quase santo não correspondeu às esperanças nele depositadas. O povo de Roma decepcionou-se. De que servia um santo no trono de Pedro, se ninguém podia se aproximar dele, ou mesmo vê-lo?

Na verdade, João VIII se tornou ainda mais discreto do que já era anteriormente. Passou-se um ano, e depois outro, sem sair do Vaticano. No entanto, ele não era inativo: ergueu igrejas e altares, compôs prefácios para as missas e instituiu a quaresma; devolveu o cetro e a coroa imperial a Luís II, filho do velho imperador Lotário, que havia se retirado para um convento. Tudo isso sem nunca aparecer em público.

Mas no início do ano 858 sua presença se fez necessária. Calamidades naturais abateram-se sobre as cidades e os campos. O rio italiano Tibre transbordou, houve um tremor de terra e nuvens de gafanhotos destruíram a colheita. A análise que a mentalidade da época fazia das catástrofes naturais era de analogia com as pragas do Egito. O pontífice, aquele que "fazia a ponte" entre a humanidade e Deus, precisava intervir.

Em desespero de causa, João VIII, convocado pelos cardeais, aceitou conduzir a procissão das Súplicas - destinada a fazer chover -, que devia acontecer no dia da Ascensão.

Na manhã desse dia, os sinos dobravam, e toda a população estava reunida para a festa, ao longo do itinerário previsto, que levava do Vaticano à igreja de São João de Latrão. Mesmo antes que o cortejo partisse do palácio pontifical, o entusiasmo estava no auge.

Enquanto milhares de vozes encobriam os salmos e as súplicas pronunciadas pelo papa, o cortejo cumpria as principais etapas, pelas ruas de Roma. O sol, elevando-se no céu, fazia-se mais e mais ardente, e as primeiras fileiras da multidão e dos cardeais começaram a notar que o rosto do papa se alterava, de quando em quando. Em seguida, uma careta de dor contínua marcou sua face. A preocupação tomou conta dos cardeais. Mais ainda porque o papa deixou de cantar e gemia surdamente. Os membros da Cúria se perguntavam se não seria melhor interromper a cerimônia.

Mas não houve tempo de responder. Subitamente, o papa soltou um grito, caiu da mula que o carregava, seguro somente por dois cardeais que estavam a seu lado. O sumo pontífice se dobrou sobre si mesmo, apertando o ventre e desmaiando. A multidão foi sacudida pela surpresa, os gritos e o choro substituíram os cantos religiosos. João VIII foi levado para o interior da igreja de São Clemente.

Lá dentro, ao mesmo tempo que se tentava descobrir a razão daquela dor no baixo ventre, ao se erguer as vestes do papa uma horrível revelação saltou aos olhos dos que ali estavam: o papa era uma mulher! Aterrorizados, todos fizeram o sinal da cruz. A cólera começou então a substituir o estupor. Mas o escândalo não terminava ali. O papa João VIII estava dando à luz, conspurcando as roupas de cerimônia e o local sagrado da igreja.

A inacreditável notícia se espalhou. Rapidamente ficou difícil conter a multidão, que tentava massacrar ali mesmo aquela que havia ousado desprezar o cargo mais importante da cristandade. Finalmente sabia-se quem era a responsável pelas calamidades enviadas pelo Senhor. João VIII, a papisa, morreu de dores de parto. A criança, uma menina, nasceu morta.

Todos se puseram de acordo para encontrar um culpado. No caso, o culpado foi João, o Inglês, doravante mais adequadamente chamado de Joana. A Cúria decidia não considerar aquela aventureira a única culpada. Providenciou-se uma diligência de investigação - o que se deveria ter feito antes - e se descobriu toda sua história.

Aos 18 anos, Joana partira com um amigo para Atenas - alguns textos falam de amante - para ali estudar grego e filosofia, passando uma primeira vez por Roma. Por motivos de conforto na viagem, vestiu roupas masculinas. Depois da Grécia, ficou na Inglaterra, terra de seus antepassados. Como seu companheiro morreu, ela voltou a Roma, capital do mundo cristão, e, antes como agora, principal centro da cultura religiosa. Todavia, ela tinha conservado as roupas masculinas, consciente das vantagens que podia auferir. Na verdade, graças àquelas roupas Joana foi apresentada aos círculos mais restritos, reservados aos doutos eruditos da cristandade, e introduzida nos mosteiros, que as mulheres não tinham o direito de freqüentar. Alguns santuários eram efetivamente proibidos, e elas só podiam venerar as relíquias dos santos, ali conservadas, uns poucos dias por ano. Antes dela, outras mulheres também tinham evitado a proibição graças a um disfarce. Foi assim que, por uma discriçãoconstante e uma sede de trabalho intelectual, Joana pôde, nos primeiros tempos, integrar o mosteiro de São Martinho em Roma, e depois, finalmente, ser eleita papa.

Permanecia o mistério da gravidez. Como explicar que ela estivesse grávida, ela que sempre tinha sido de uma pureza e de costumes irrepreensíveis? Bocage, muitos séculos depois desses acontecimentos, indicou que, cedendo à licenciosidade que reinava em Roma, Joana havia se deixado seduzir por Lamberto da Saxônia, embaixador naquela cidade. Pergunta-se se ele, ao querer seduzir um papa, se viu de repente com uma jovem mulher nos braços, ou se teria antes descoberto a mulher por detrás do papa. A história não fala diretamente, mas ainda assim revela bastante sobre a licenciosidade sexual da corte pontifical de então: alguém ambicioso podia empregar todos os meios para atingir seus objetivos. Lamberto da Saxônia, por exemplo, não assumindo absolutamente o papel de pai da filha do papa, se eclipsou judiciosamente, antes que o escândalo estourasse. E foi esse escândalo que se tornou de conhecimento geral no dia da Ascensão em 858.

As primeiras fontes que contaram a história da papisa Joana datam de quatro séculos depois dos acontecimentos. Pois se certos manuscritos falam deles, como o de Anastásio, o Bibliotecário (século IX), ou as crônicas de Martin le Scot, monge de Fulda (século XI), e de Sigebert de Gembloux (século XII), assim foi somente nas versões dos séculos XIV e XV. Os manuscritos originais não dizem uma única palavra a respeito. Na realidade, o testemunho escrito mais antigo sobre a papisa está em A crônica universal de Metz, redigido por volta do ano 1250 pelo dominicano Jean de Mailly.

Segundo ele, o episódio aconteceu no final do século XI. Ele o cita como um boato: "A verificar. Naqueles anos, houve um certo papa, ou melhor, uma papisa, pois era mulher; disfarçando-se de homem ela se tornou, graças à honestidade de seu caráter, notário da Cúria, em seguida cardeal, e finalmente papa (...)". Esse texto, por sua vez, está reproduzido no Le traité des divers sujests de prédication, do dominicano Étienne de Bourbon, escrito por volta de 1260. Depois de Étienne de Bourbon, a história foi ganhando detalhes. Assim, em sua Crônica dos papas e imperadores, o dominicano Martinho, o Polonês, diz: "Depois desse Leão, João, tido como inglês, mas na verdade originário de Mogúncia, reinou 2 anos, 7 meses e 4 dias. Morreu em Roma e o papado ficou vago por um mês. Pelo que se diz, ele era uma mulher. (...) Ele não foi inscrito na lista dos santos pontífices, em razão da não conformidade de sexo". Essa crônica teve um sucesso extraordinário. Mais de 150 manuscritoschegaram até nossos dias.

Com a divulgação desses relatos, a crença na história da papisa foi confirmada. Em 1403, quando Jean Gerson pregava diante do papa Bento XIII, em Tarascona, ele citou-a como personagem oficial da história. Ao indicar, no Concílio de Constância, que ela havia ocupado o trono pontifical durante dois anos, Jan Huss não foi desmentido por ninguém. Assim como o cardeal Juan de Torquemada, tio do famoso inquisidor, quando recordou sua história, em sua Súmula para a Igreja, em 1561.

Essa versão só foi alterada no fim do século XVI. Clemente VIII conseguiu do grão-duque da Toscana que o retrato da papisa fosse apagado da catedral de Siena, onde há representações de vários papas. Foi na época da Contra-Reforma católica que as dúvidas sobre a existência da papisa começaram.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL

Folha de São Paulo
São Paulo, domingo, 13 de maio de 2007
Um outro mundo é possível

Em "Podemos Não Crer?", o filósofo Jacques Bouveresse defende que a"religião da divindade" irá perder cada vez mais espaço para a"religião da humanidade"

LENEIDE DUARTE-PLON
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

O filósofo francês Jacques Bouveresse, professor do Collège de France,empreende em seu novo livro "Peut-On Ne Pas Croire? Sur la Vérité, laCroyance et la Foi" [Podemos Não Crer? Sobre a Verdade, a Crença e aFé, ed. Agone, 24 euros, R$ 67] uma discussão filosófica em torno dafé, do antigo antagonismo entre fé e ciência e do pretenso retorno dareligiosidade. Serve-se de autores como Nietzsche, Renan, James,Bertrand Russel, Wittgenstein e Freud, entre outros que seinteressaram pelo problema da fé e da religião. Em entrevistaexclusiva à Folha, Bouveresse admite que "existe um declínio dafé religiosa, que não é incompatível com um recrudescimento dareligião, se admitimos que o que é importante na religião não é acrença, mas a experiência religiosa".

Sobre o presidente americano George W. Bush, que expõe publicamentesuas convicções religiosas e pretende combater o "mal", Bouveressediz: "Uma política que se apóia explicitamente sobre um fundamentoreligioso pode encontrar aí dinamismo, poder e influência, mas não setorna por isso mais justa". O filósofo afirma que, na encíclica "Fé eRazão", o papa João Paulo Segundo demonstrou que, quando propõemabandonar a noção de verdade objetiva, os relativismos radicais e ospós-modernismos são inimigos tanto da fé quanto da razão e da ciência."O que constato é que hoje são os céticos e os agnósticos que tendem aaparecer como doutrinários dogmáticos e intolerantes, como seexistisse uma obrigação de crer que eles não respeitassem."

FOLHA - O filósofo Renan não identifica o progresso ao desaparecimentogradual da religião e "pensa não somente como uma possibilidade mascomo certo e inevitável, como um progresso da religião". O sr. podeexplicar o que ele via como progresso da religião?

BOUVERESSE - Renan pensava que as religiões nasceram pelo fato de ahumanidade ter necessidade de saber, num momento em que não dispunhaainda de meios suficientes. A força da ciência está justamente em sercapaz de esperar e, enquanto espera, renunciar a toda certeza prematura.Quando se torna possível saber, necessariamente a religião setransforma, mas não há nenhum motivo para pensar que ela desaparecerá,e Renan não desejava que ela desaparecesse.O que é difícil é saber o que subsistirá da religião tradicional e seisso merecerá ainda o nome de "religião". Para Renan, que identificavaa oração à especulação racional, um pensador autêntico não pode deixarde ser, no fim das contas, um homem religioso num sentido que ainda é,provavelmente, indeterminado.O progresso da religião, tal qual ele o concebia, consiste numaredução progressiva da religião ao seu núcleo racional. A únicareligião aceitável e a que ficará no fim das contas é o que podemoschamar a "religião da humanidade" (em vez da religião da divindade).

FOLHA - Tanto Freud quanto Nietzsche pensam que a crença em Deus é "amarca de uma fraqueza, mas de uma fraqueza que é quase constitutiva eque poucos homens são capazes de superar completamente". Contudo Freuddiz não pretender superestimar o poder do intelecto e pensa que apsicanálise não ameaça a crença religiosa. O que pode ameaçar a fé?

BOUVERESSE - Honestamente, não sei. Pensou-se durante um tempo,ingenuamente, que o desenvolvimento dos conhecimentos científicos irialevar ao declínio e ao desaparecimento progressivo da crençareligiosa. Mas essa previsão não parece ter sido nem um pouco confirmada.De modo nenhum o progresso das ciências tornou a humanidade maisimpermeável à crença em geral e nem mesmo às crenças que podem parecerà primeira vista irracionais e absurdas.Se julgarmos, por exemplo, estatísticas citadas por Alan Sokal[físico] e Noam Chomsky [lingüista] a propósito dos EUA, pode-sepensar que, ao contrário, a humanidade nunca foi tão crédula quantoagora, quando dispõe de meios de informação e de saber nunca antesexistentes.Essa incapacidade de diferenciar o pouco que se sabe realmente do quese gostaria de saber -mas que se sabe parcialmente ou quase nada- éjustamente uma das coisas que vejo hoje como inquietantes. Para mim, acredulidade sem limites constitui um perigo social e político real eimportante.E não é repetindo que todas as crenças têm o mesmo valor e que devemser respeitadas que vamos nos proteger desse perigo.

FOLHA - O senhor cita Habermas, que escreveu: "As tradições e asdiversas religiões conquistaram uma importância política nova,inesperada até hoje, desde a mudança marcante dos anos 1989-1990". Avolta da religiosidade e o crescimento dos fundamentalismos de todaespécie seriam, então, conseqüências do fim do comunismo e da utopiada construção do paraíso na terra?

BOUVERESSE - Não são unicamente conseqüência do desmoronamento docomunismo. Mas, na medida em que este funcionava em grande parte comouma religião da salvação de caráter leigo e profano, sua derrocadadeixou um vazio que um retorno à religião, no sentido tradicional dotermo, pode dar a impressão, certa ou falsa, de estar em condições depreencher.

FOLHA - O presidente George W. Bush não perde ocasião de afirmar suafé cristã de "born again", como os evangélicos chamam os convertidos.Em que a geopolítica dos EUA é influenciada pelo fato de Bush serevangélico?

BOUVERESSE - Chomsky tem razão ao frisar que o que se passa agora énovo e que jamais um presidente dos EUA se sentiu obrigado a aparecercomo homem religioso. Uma das conseqüências mais desastrosas disso é atendência de os EUA e seu líder se apresentarem como investidos de umamissão que consiste em defender e, se possível, fazer triunfar asforças do bem contra o mal.Ora, é uma visão das coisas e uma linguagem que, na minha opinião,deveriam ser deixadas para a religião e que não têm lugar na políticainternacional nem na política "tout court".Não é porque é o cristianismo que se expressa e se comporta dessaforma que isso se torna mais aceitável e menos perigoso.Uma política que se apóia claramente sobre fundamentos religiosos podeencontrar aí dinamismo, poder e influência, mas não se torna por issomais justa.

FOLHA - Existe hoje uma patrulha ideológica contra os não-crentes?

BOUVERESSE - Hoje, são freqüentemente os não-crentes que podem pareceratrasados (que são acusados de defender posições consideradas"cafonas", o que, hoje, é considerado o argumento mais consistente).Mas isso não é o mais preocupante, e sim o fato de que não são aspessoas que crêem cegamente que são vistas como intolerantes, mas,sim, as que não crêem e que pedem justificações e provas.No mínimo, o que se pode dizer é que a credulidade leva maisfacilmente ao dogmatismo e à violência do que o ceticismo.

FOLHA - No seu livro, o senhor cita alguém que diz que "se há umchoque entre a fé e a ciência e a razão, ele só pode ser um conflitomais aparente que real e mais artificial que intrínseco entre duasformas de inteligência e de racionalidade diferentes, nãonecessariamente incompatíveis". O senhor está de acordo?

BOUVERESSE - Como deixei há muito tempo de crer, não tenho opiniãosobre essa questão e nem sinto necessidade de ter. Limito-me aassinalar que a Igreja Católica tem que fazer uma escolha. A questãojá estava colocada no século 19.Para pensadores católicos reformistas e progressistas, como HenriLacordaire [1802-1861] ou Alphonse Gratry [1805-1872], era mais oumenos evidente que não poderia haver antagonismo real entre as luzesda fé e as da razão e da ciência. Para eles, os adversários da fé sãotambém da razão e da lógica. Era mais ou menos o que pensava JoãoPaulo Segundo, se me baseio na encíclica "Fé e Razão".Mas pode-se pensar -- e a Igreja católica poderia ser tentada a isso,mesmo se, no momento, não segue esse caminho -- que a religião sebaseia mais eficazmente no sentimento e na emoção do que na razão eque esse é o alicerce seguro e durável sobre o qual ela pode repousar,independentemente do que diga a ciência.

FOLHA - Wittgenstein se angustiava com sua profunda necessidade decrer e o sentimento doloroso da impossibilidade de consegui-lo. De quedepende a necessidade de crer?

BOUVERESSE - Em todas as pessoas, a necessidade de crer depende danecessidade de ter respostas a certas perguntas, como por exemplo a dosentido da vida, à qual, para Wittgenstein, a ciência não está apta aresponder e também não procura responder.Mas a insuficiência da ciência nesse ponto não constitui certamenteuma prova a favor da verdade da religião em geral e menos ainda dasreligiões existentes. E, como enfatiza Freud, o fato de a crençaresponder a uma necessidade e a um desejo (o de que as coisas que elaafirma são verdadeiras) não aumenta suas chances de ser verdadeira, oque, queiramos ou não, constitui o ponto crucial, pelo menos para osque crêem ainda na importância da verdade.Wittgenstein não confunde jamais a aspiração à fé com a fé efetiva einsiste particularmente no fato de que, se a crença pode transformar avida, também é verdade que pode ser necessário mudar primeiramente devida para alguém conseguir crer.

FOLHA - Wittgenstein tem uma bela frase para falar da crençareligiosa. Ele diz que ela não é, como a sabedoria, uma coisa à qual agente pode ser levada pela reflexão, e que ela está mais próxima dapaixão. O senhor está de acordo?

BOUVERESSE - Estou de acordo sobre o papel determinante da emoção e dapaixão, das quais eu tenho tendência a desconfiar mais que ele (nessecaso preciso e em geral).Mas o que acho mais ainda interessante é a distinção radical que elefaz entre a religião e a superstição, e a maneira como ele expressaisso. Para ele, o que faz, se adotamos o ponto de vista de Freud, aforça das representações religiosas, a saber os medos e as esperançasde consolação e de retribuição que estão ligadas a isso, não está nodomínio da religião propriamente dita, mas da superstição.Na religião de Wittgenstein, se essa é a palavra que convém utilizar,não há lugar para o medo e a esperança. É uma religião da vidaterrestre, que identifica a eternidade com a vida no presente, semreferência ao além e praticamente sem transcendência. É nesta vida quese deve efetuar a reconciliação com a morte, e não depois dela.

FOLHA - O senhor escreve que "é possível que a humanidade deixe um diade ter necessidade de acreditar na imortalidade e na maioria dascrenças religiosas". Ainda estamos longe desse dia?

BOUVERESSE - Não sei o bastante para poder lhe responder. Mas, ajulgar pela pesquisa recente feita pela revista "Le Monde desReligions", a percentagem de pessoas que se dizem católicas e que, noentanto, não acreditam numa vida após a morte é surpreendentementeelevada. Melhor será não perguntar se acreditam ou não na ressurreiçãodos corpos, que também é um artigo do credo apostólico.Certamente existe um declínio da fé religiosa, que não é incompatívelcom um recrudescimento da religião, se admitimos que o que éimportante na religião não é a crença, mas, sim, a experiênciareligiosa. Daí a dizer que as crenças religiosas em geral vãodesaparecer e em quanto tempo isso se dará, eu não me arriscaria aformular um prognóstico.

FOLHA - Na sua opinião, um homem que crê pode ser livre ou sualiberdade é relativa quando está sob a tutela de uma religião?

BOUVERESSE - A questão que você levanta é a da liberdade das crençasem geral e das crenças religiosas em particular. Essa é uma questãofilosófica crucial e sobre a qual as opiniões podem divergircompletamente.Não se pode, claro, ser responsabilizado pelo que se crê, o que épressuposto por toda "ética da crença", senão quando se dispõe, aomenos em certa medida, da possibilidade de aceitar ou de rejeitarlivremente a crença. Mas, como em qualquer caso, a liberdade não operano vazio e nunca pode ser total.A crença pode ser condicionada por uma multidão de fatores históricos,psicológicos, sociais, culturais etc., sem ser propriamente umanecessidade.

FOLHA - O apego à vida terrestre sem a perspectiva de um além tornanecessariamente mais difícil a aceitação da morte?

BOUVERESSE - Não necessariamente. Há pessoas para quem o fato derenunciar a qualquer idéia de vida além da morte torna a vida maispreciosa, mais interessante e mais bela, mas, igualmente, a morte maiscompreensível e aceitável.Era, penso, o caso de Wittgenstein. E também é o tipo de idéiadefendido em alguns textos de Gottfried Keller, um escritor que eleadmirava particularmente e que provavelmente o influenciou muito.

FOLHA - Em que o senhor crê?

BOUVERESSE - É uma pergunta impossível de ser respondida em poucaslinhas e cujo interesse me parece principalmente documental. Escrevium livro sobre o problema da crença ou da fé em geral e o da féreligiosa em particular, mas eu não escreveria um livro do tipo "emque creio", que pertence a um gênero que não me é simpático e não meatrai.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1305200710.htm

A TESE DE IVAN KARAMAZOV

ANTONIO CICERO
A tese de Ivan Karamazov

Longe de ser o fundamento da ética, a fé em Deus é a condição de relativizar a ética

VOLTA E meia alguém traz novamente à tona a famosa tese de Ivan Karamazov, personagem de Dostoiévski: "Se Deus não existe, tudo é permitido". Acho que muita gente acredita piamente nela e atribui à irreligiosidade da população a constante e inquietante alta dos índices de criminalidade. Será talvez com a intenção de baixar esses índices que os donos ou editores das revistas brasileiras de circulação nacional raramente deixam passar uma semana sem que, ao menos numa das suas revistas, façam propaganda, numa reportagem de capa, da fé e da religiosidade dos brasileiros.

Ora, a tese do personagem de Ivan não resiste a um simples experimento de pensamento. Suponha que me apareça Deus e me ordene matar o meu filho (ou mãe, ou pai, ou irmão, ou amante, ou amigo). Que faria eu? Ponha-se o leitor na minha pele. Não tenho dúvida de que a minha primeira reação -a primeira reação de qualquer pessoa que não tivesse perdido o juízo- seria duvidar do que parecia estar vendo e ouvindo. Eu me beliscaria, para saber se não estava sonhando; suspeitaria estar tendo um surto de loucura, um delírio etc.Aquilo simplesmente não poderia estar acontecendo. E não poderia estar acontecendo por duas razões: primeiro, porque Deus não costuma aparecer, pelo menos hoje em dia. Quando alguém diz que conversou com Deus -ainda que quem o diga seja o presidente dos Estados Unidos-, suspeita-se imediatamente da sua sanidade mental. De todo modo, eu não obedeceria.Mas a segunda razão é ainda mais séria. É que, se isso estivesse realmente acontecendo, então Deus me estaria mandando fazer uma coisa má: uma coisa inteiramente, indiscutivelmente, inapelavelmente errada. Ora, não posso contemplar tal hipótese. Logo, isso não poderia estar acontecendo. Eu pensaria antes que, ou não havia ninguém ali, e eu estava simplesmente a delirar, ou havia alguém de fato ali, mas se tratava de um impostor -talvez até de um demônio-, mas não de Deus, pois seria impensável que Deus me mandasse fazer uma coisa errada: e que coisa poderia ser mais errada do que aquela? Em suma, eu não obedeceria.

Mas levemos a coisa ainda mais longe. Suponhamos que, por alguma razão inconcebível, fosse incontornável a evidência de que ali se encontrava Deus. Ouso dizer que, ainda assim, eu não mataria meu filho ou amigo: eu não mataria sequer um estranho. Por quê? Porque seria errado. E seria errado, não por causa dos mandamentos que o próprio Deus decretara, uma vez que, naquele instante, Ele mesmo os estaria revogando, mas simplesmente porque, independentemente de qualquer mandamento, é errado matar uma pessoa. É, portanto, errado matar uma pessoa, ainda que Deus não exista. Logo, ao contrário do que afirma a tese do personagem de Dostoiévski, nem tudo é permitido, ainda que Deus não exista.

O leitor terá sem dúvida lembrado que, na Bíblia (Gn 22), Abraão se encontrou na situação em que me imaginei no experimento de pensamento. Com efeito, Deus pôs Abraão à prova, ordenando-lhe que matasse o seu filho primogênito. Ao contrário de mim (e do leitor que se pôs na minha pele), Abraão se dispôs a obedecer e, quando já havia pegado a faca para sacrificar seu filho, foi impedido por um anjo, enviado por Deus.

Como se sabe, foi sobre esse episódio que Kierkegaard escreveu as páginas impressionantes de "Temor e Tremor". Nelas, ele mostra que, do ponto de vista puramente ético, não se justificaria a prontidão de Abraão. Só a fé -superior, segundo Kierkegaard, à ética, por constituir uma relação individual e absoluta com Deus- justifica a atitude de Abraão. Desse modo, graças à religião, a esfera da ética é relativizada pela da fé.

Sendo assim, devemos inverter a tese de Ivan Karamazov: não só não é verdade que, se Deus não existe, tudo é permitido -já que, como vimos, não é permitido matar-, mas, ao contrário, é se Deus existir que tudo é permitido.Longe de ser o fundamento da ética, a fé em Deus é a condição de relativizar e, no limite, negar a ética. Isso lembra as palavras do físico norte-americano Steven Weinberg, detentor do Prêmio Nobel de Física: "Com ou sem religião, as pessoas bem-intencionadas farão o bem e as pessoas mal-intencionadas farão o mal; mas, para que as pessoas bem-intencionadas façam o mal, é preciso religião".

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2104200732.htm

A TERRA SEGUNDO A BÍBLIA


POR QUE DEUS VIVE E SOBREVIVE?

POR QUE DEUS VIVE E SOBREVIVE?
Artigo de JOÃO DE FREITAS
(Escrito em 25/3/2007)
Fonte: USINA DE LETRAS

Por que ainda sobrevive um deus entre a maioria da população humana? Por que são poucos os que concluem que ele é, tanto quanto os outros já inexistentes, produto da imaginação humana.

Lembro que, em minha bem tenra infância, todos os dias à noite, minha mãe me ensinava a rezar buscando a proteção divina. Aprendi que Deus criou todas as coisas; que o homem foi feito do pó da terra e a mulher, de sua costela; que a mulher comeu uma fruta proibida e a deu ao homem, e todos os sofrimentos humanos, inclusive a morte, derivaram dessa desobediência; que Jesus morreu crucificado e ressuscitou para salvar do tormento eterno aqueles que vivessem segundo a vontade divina; que estávamos muito próximos do dia em que Jesus viria do céu para recolher esses bons cristãos e levá-los para o céu, e os maus iriam para o inferno, onde ficariam queimando eternamente; que Jesus delegou a São Pedro a condução de sua igreja, e após a morte de Pedro, outros substitutos dele deram continuidade ao trabalho, sendo esses representantes divinos da Terra chamados Papas.

Em nosso meio era muito raro e parecia muito absurdo quando ouvíamos que uma pessoa dizia que Deus não existe. Parecia-nos a pessoa mais estúpida aquela que duvidasse da existência desse ser que é chamado de Deus.

Até por volta dos dezessete anos, embora não tivesse nenhuma dúvida sobre a existência desse deus criador de todas as coisas, eu não ligava muito para esses assuntos, raramente indo a uma igreja. Todavia, por essa época, comecei a ler doutrina adventista do sétimo dia, onde era informado de que o papa, ao invés de representante de Cristo, era a besta do Apocalipse; que a verdade estava com a Igreja Adventista do Sétimo Dia. Então comecei a ler a Bíblia e as dúvidas começaram a surgir.

Conheci a interpretação da profecia de Daniel, capítulo 7, no livro “Pelos Meandros do Mal”. “Um tempo, dois tempos e metade de um tempo" teria sido de 538 a 1798 A.D., período em que o Papa perseguia os que se opunham a seus dogmas e mudou "os tempos e a lei", alterando o limite do dia do pôr-do-sol para meia-noite e trocando o sábado pelo domingo; que seu título – VICARIUS FILII DEI – continha o número da besta, que o identifica.

Confiante de ter encontrado a VERDADE, passei a apresentá-la para todos com quem falava. Estudava constantemente a Bíblia.

Certo dia, escrevi uma carta a um bom amigo, bom católico, que ficou escandalizado com o que eu disse, afirmando-me que os Papas eram os sucessores de São Pedro, e que sua igreja era aquela fundada por Cristo.

Mudando para Rondônia, conheci um grupo de adventistas, os quais me afirmaram que a Igreja Adventista do Sétimo Dia já não era mais a igreja de Deus, sendo esta os remanescentes chamados Adventistas do Sétimo Dia Movimento de Reforma. Passei a conhecer várias interpretações e histórias eclesiásticas.

Durante um bom tempo, tinha plena convicção de que estava seguindo a VERDADE e devia levá-la a todas as pessoas. Discutia muito com aqueles que não acreditavam na doutrina que eu havia tomado como a verdadeira, e, muitas vezes, até convencia as pessoas de que estava certo.

A certa altura, após uns dois anos de profissão de fé adventista, comecei a ver que muitas coisas ensinadas pela igreja a que pertencia estavam muito contraditórias em relação ao conteúdo da própria Bíblia. Assim, após muito estudar, concluí que essa doutrina não era “a verdade” que diziam ser, e passei a estudar em busca da doutrina que, entre tantas, fosse a verdadeira. Alguém, dentre tantos religiosos discordantes, deveria estar com a verdade.

Depois de muito estudar, comecei a perceber que a própria Bíblia era cheia de contradições. Aí fiquei com a fé um pouco abalada. A palavra de um ser onisciente não poderia conter contradições, imaginei.

Após meditar sobre essa vasta coleção de afirmações inconciliáveis, que dizem compor a verdade divina, levei em conta que os escritores ditos divinamente inspirados tinham uma visão do universo tão primitiva quanto a dos antigos caldeus, que adoravam os astros.

Poderíamos considerar bom (Salmos, 34:8), perfeito (Mateus, 5: 48) e justo (Salmos, 145: 17) um deus que “vinga a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e a quarta gerações” (Deuteronômio, 5: 9)?

Poderíamos hoje aceitar como vinda do todo-poderoso e onisciente criador do universo a informação de que o sol “principia numa extremidade dos céus, e até a outra vai o seu percurso” (Salmos, 19: 4-6)? Por que o criador não inspirava seus emissários para explicarem que o Sol não circula em torno da Terra, e esta é que orbita em volta do Sol?

Se o próprio Cristo disse que próximo de seu retorno “as estrelas cairão do firmamento” (Mateus, 24:29), estava confirmando a visão humana da época, como se vivêssemos no centro do universo, e os milhões de estrelas que enfeitam o céu, minúsculas como parecem aos nossos olhos, pudessem cair “pela terra como a figueira, quando abalada por vento forte, lança seus figos verdes” (Apocalipse, 6:13). Isso está totalmente divorciado da propagada onisciência de um criador de todas as coisas.

Os mensageiros divinos deviam imaginar, como qualquer homem pré-histórico, um mundo quadrado; pois, se tivessem conhecimento da forma do planeta, certamente não falariam de “quatro cantos da terra” (Apocalipse, 7:1; 20:8). Como poderíamos determinar quatro cantos em uma bola?

Se, além de tudo isso, a cronologia profética dava este mundo por extinto em tempo bem anterior ao nosso (Veja no livro A ARRISCADA PRETENSÃO DE SABER O FUTURO), em que eu poderia firmar minha fé? Onde buscar evidências de uma verdade divina, se as descobertas humanas puseram por terra as afirmações dos chamados mensageiros de Deus?

Ante os dados arqueológicos atuais, como continuar acreditando que todo esse universo foi feito em um período literal de sete dias (tardes e manhãs (Gênesis, 1: 1-31; 2:1) há aproximadamente seis mil anos?

Sem entender por que tantos absurdos poderiam proceder do onisciente, pedia em minhas orações que Deus me mostrasse a verdade, mas me vi cada vez mais desiludido pela análise rigorosa dos pilares da fé.

O Espiritismo refere-se ao Deus da Bíblia e ao verdadeiro Deus, como entidades diferentes. Ante isso, pondero comigo mesmo: se o Deus da Bíblia não me mostrou a verdade, o que há para me persuadir a crer no Deus do Espiritismo?

E Alá, o terrível Deus dos muçulmanos? Se Jeová ordenava a matança dos gentios pelos israelitas, Alá determina a guerra santa dos muçulmanos contra os ímpios (o resto da humanidade); a cruz de Cristo justificou as hediondas cruzadas contra os hereges (os que se opunham aos dogmas católicos); as religiões continuam sendo a maior causa de guerras no planeta; qual desses deuses seria o verdadeiro?

Estudando as profecias, percebi que essas previsões não se cumpriam, mas os religiosos adaptavam fatos a elas; que, se as primeiras profecias se tivessem cumprido, não estaríamos hoje em um mundo como este.

Sabendo que:
a – os profetas não previram o futuro como antes eu imaginava;
b – as informações dos ditos homens inspirados mostravam completa ignorância em relação às coisas que dependiam de conhecimento científico, não podendo ser palavras de pessoas inspiradas por um ser onisciente;
c – esse conjunto chamado de palavra de Deus está cheio de contradições;
d – a ciência não nos deixa dúvida de que o universo não foi criado há seis mil anos, mas há bilhões de anos;
e – a arqueologia prova que os seres vivos não foram feitos como são hoje, mas passaram por uma longa cadeia evolutiva.

Para mim não foi difícil descobrir que divindades foram produto da falta de conhecimento humano. Mas imagine se é fácil para quem não tem ou não dedica tempo a verificar a Bíblia. E para quem é analfabeto? E quantas pessoas são capazes de ler a Bíblia com isenção? A maioria só lê aqueles versículos indicados pelos pastores de suas igrejas e jamais vêem as contradições. Outros são preparados para apresentar explicações mirabolantes capazes de convencer os incautos de que as contradições não existem. Outros nem tomam tempo de ler, porque acham que, se tanta gente está acreditando, isso não pode estar errado. Essa é razão por que esse Deus ainda sobrevive.

O TÚMULO DO FANATISMO

O Túmulo do Fanatismo
Rodrigo Constantino

"A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos inteligentes como falsa, e pelos governantes como útil." (Sêneca)

Muitos acham que religião não se discute, mas eu não concordo. Afinal, o tema é sagrado apenas para os que assim o consideram, e estes não têm o direito de exigir dos demais o mesmo tratamento de reverência. Acredito que a crença religiosa dogmática é a maior inimiga da liberdade, e por isso creio que o tema não só pode como deve ser debatido sob a luz da razão.

Foi o que fez Voltaire, o "Pai do Esclarecimento", segundo Karl Popper. Em seu livro O Túmulo do Fanatismo, Voltaire liga uma metralhadora giratória, mas munida com sólidos argumentos, contra o fanatismo religioso. Trata-se de uma crítica dura, bastante pesada, que com certeza machuca qualquer crente. Aqui faço um breve resumo do que ele diz, e peço que aqueles não dispostos a questionar a própria fé sequer leiam o restante do artigo. Afinal, como dizia Carl Sagan, "não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências, baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar".

Logo no começo, Voltaire afirma que "um homem que recebe sua religião sem exame não difere de um boi que atrelam". Examinar, questionar, é um dever de qualquer um que respeita a razão. A diferença básica entre a ciência e a religião é essa: uma está aberta à crítica, implora para que você prove que ela está errada, enquanto a outra o condena se você tentar provar que ela está errada, mandando aceitar com fé e calar a boca. Duvidar já é pecado! Um abismo intransponível separa os dois métodos, as duas posturas.

As críticas embasadas de Voltaire foram focadas no Judaísmo e no Cristianismo, mas ele fala de forma geral, quando diz que "a desconfiança aumenta quando se percebe que o objetivo de todos aqueles que estão à frente das seitas é dominar e enriquecer quanto puderem, e que, desde os dairis do Japão até os bispos de Roma, a única preocupação foi erguer para um pontífice um trono fundado na miséria dos povos e muitas vezes cimentado com seu sangue".

Mas centrando a mira no Cristianismo e no Judaísmo, Voltaire começa questionando se existiu mesmo um Moisés. O que se fala de sua vida seria tão fantástico como o encantador Merlin. Voltaire busca também a origem muito suspeita das histórias de Moisés, como ser salvo das águas num cesto, que poderiam ser cópias de contos muito semelhantes na Arábia. O resto todo de sua história seria igualmente absurda e bárbara, com dados fantásticos e impossíveis, exageros grosseiros etc. "Que lamentável fazer Deus descer em meio a raios e trovões, sobre uma pequena montanha calva, para ensinar que não se deve ser ladrão!". Os judeus, de forma geral, não são poupados: "Como eles mesmos reconhecem, são um povo de ladrões que carregam para um deserto tudo o que roubaram dos egípcios".

A vida do "bom" rei Davi é um exemplo do que Voltaire tem em mente. Tomou o trono de Isbaal, filho de Saul, mandou assassinar Meribaal, filho do seu protetor Jônatas, entregou aos gabaonitas dois filhos de Saul e cinco de seus netos para que fossem enforcados, assassinou Urias para encobrir seu adultério com Betsabéia. "A seqüência da história judaica não é mais que uma trama de crimes consagrados", ele diz. Salomão, o sábio, começa por degolar seu irmão Adonias. Fora isso, teria setecentas mulheres e mais trezentas concubinas. Tais seriam os costumes do mais sábio dos judeus, ou como lembra Voltaire, ao menos os costumes que lhe atribuem com respeito rabinos e teólogos cristãos.

Para Voltaire, o primeiro profeta foi o primeiro embusteiro que encontrou um imbecil. O mundo esteve cheio de Nostradamus, e o Alcorão conta, segundo ele, duzentos e vinte e quatro mil profetas. As histórias dos vários "profetas" são estapafúrdias, uma mais extravagante que a outra. E várias contidas na Bíblia, como as histórias de Isaías que andava nu em pêlo no meio de Jerusalém, ou Jonas que teria passado três dias no ventre de uma baleia. Surgir alguém que transforme água em vinho no meio disso tudo parece algo bem compreensível, portanto.

Voltaire começa questionando a origem de Jesus, que nasceu numa época em que o fanatismo estava em alta. Vários que acreditaram nele escreveram Evangelhos, que quer dizer "boa nova" em grego. Cada um escrevia uma Vida de Jesus, todas discordando, mas parecidas na enorme quantidade de prodígios incríveis atribuídos ao fundador da nova seita. Num desses livros, diz-se que Jesus era filho de uma mulher chamada Mirja, casada em Belém com um pobre homem chamado Jocanam. Havia na vizinhança um soldado de nome José Panther, que teria se apaixonado por Mirja, que teria engravidado dele. Existe mais que isso na história, mas Voltaire conclui: "É mais provável que José Panther tenha feito um filho a Mirja do que um anjo tenha vindo pelos ares cumprimentar da parte de Deus a mulher de um carpinteiro". De fato. E como não custa lembrar, Deus tinha irmãos homens, se Jesus era Deus.

Em seguida, Voltaire começa a relatar os "milagres" atribuídos a Jesus. Em um deles, Jesus manda o diabo para o corpo de dois mil porcos, numa região onde não havia porcos! Voltaire vai mostrando como a ignorância dos que inventavam essas fantasias entrega a própria falácia da coisa. Por fim, Jesus foi crucificado por ter chamado seus superiores de "raça de víboras", o que era na época crime punido desta maneira. Foi executado em público, mas ressuscitou em segredo.

A quantidade enorme de Evangelhos que relatavam a fantástica vida de Jesus era repleta de contradições. Para Voltaire, esses Evangelhos, transmitidos para os pequenos rebanhos de cristãos, foram visivelmente forjados após a queda de Jerusalém. Um deles, atribuído a Mateus, fala em Igreja sendo que no tempo de Jesus sequer existia Igreja. Antes dos quatro Evangelhos famosos e aceitos hoje, os padres dos dois primeiros séculos quase sempre citavam os que são agora denominados apócrifos. Voltaire pergunta então: "Por que o mais escrupuloso dos cristãos ri hoje, sem qualquer remorso, de todos esses Evangelhos, de todos esses Atos, que não estão mais no cânon, e não ousa rir daqueles que são adotados pela Igreja?". São mais ou menos os mesmos contos, mas "o fanático adora sob um nome o que lhe parece o cúmulo do ridículo sob outro".

Está dito, em mais de um Evangelho, que Jesus enviou os apóstolos expressamente para expulsar os demônios. O próprio Jesus reconhece que os judeus tinham esse poder. Não havia nada mais fácil para o diabo do que entrar no corpo de um mendicante, que pagava para ser exorcizado. Curiosamente, os diabos jamais ousavam apoderar-se de um governador de província ou de um senador. Eram sempre os que nada possuíam que foram possuídos. As religiões são como pirilampos: só brilham na escuridão. Não é muito diferente do que vemos nas igrejas oportunistas que pululam os países mais miseráveis e com mais ignorantes. Mas o mesmo que ri do espetáculo embusteiro da Igreja Universal hoje, aceita com um respeito fanático o que lhe chega sobre Jesus, sequer tendo coragem de questionar algum dos fatos incríveis atribuídos a ele.

Todo Deus era bem vindo em Roma. As diferentes seitas conviviam entre si de forma mais ou menos pacífica. Nenhuma era louca o bastante para querer subjugar as outras. A seita cristã foi a única que, no final do segundo século, ousou dizer que queria a exclusão de todos os ritos do império, e que deveria esmagar todas as religiões. O seu Deus era um Deus ciumento. "Que bela definição do Ser dos Seres é imputar-lhe o mais covarde dos vícios!".

Os cristãos foram com muito mais freqüência tolerados do que sujeitos a perseguições. O reinado de Diocleciano foi, durante 18 anos, um reino de paz e até de favores para eles. Prisca, mulher de Diocleciano, era cristã. Construíram templos soberbos, depois de terem dito que não eram precisos templos para Deus. A Igreja passava a ser opulenta e cheia de ostentação, com vasos de ouro e ornamentos deslumbrantes. Veio então Constantino, que fez-se reconhecer imperador no interior da Inglaterra por um pequeno exército de estrangeiros, ignorando Maxêncio, eleito pelo senado. Voltaire chama Constantino de tirano, pois seu direito era proveniente apenas da força, e por este ter mandado matar o próprio filho, Crispus, e sufocado a própria mulher, Fausta. Foi ele que convocou a assembléia em Nicéia para resolver o "assunto bem medíocre", segundo o próprio, sobre a incompreensível Trindade cristã.

O concílio redigiu um formulário no qual o nome Trindade não é nem sequer pronunciado. Consta apenas um "cremos também no Espírito Santo", sem maiores explicações. O mais divertido do concílio, no entanto, foi a decisão sobre alguns livros canônicos. Os Padres estavam confusos com a escolha entre os Evangelhos, e decidiu-se amontoar todos eles sobre um altar e rogar ao Espírito Santo que jogasse no chão todos aqueles que não fossem legítimos. Uma centena deles teria caído no chão. Um meio infalível de conhecer a verdade! Foi Constantino, através desse concílio, que tornou o Cristianismo a religião oficial do império romano.

A carnificina, os horrores, a ganância, as intrigas, os assassinatos, tudo que se seguiu pela Idade Média é conhecido pela história. Não é preciso sequer falar de Inquisição. Voltaire chegou a mostrar para padres essas atrocidades todas, e estes respondiam apenas que era uma boa árvore que produzira maus frutos. Voltaire rebatia que era uma blasfêmia afirmar que uma árvore que carregara tantos e tão horríveis venenos tivesse sido plantada pelas mãos do próprio Deus. "Na verdade, não existe nenhum padre que não deva corar e baixar os olhos diante de um homem honesto".

Os horrores da religião, nem de perto, são monopólio da Igreja Romana. Esta ganhou em quantidade de crimes apenas porque teve riquezas e poder por mais tempo. Os horrores do Islã são amplamente conhecidos, e Maomé mesmo foi um guerreiro empedernido. Ainda hoje os fanáticos muçulmanos trazem o terror ao mundo civilizado. Alguns podem acusar o ateísmo pela barbárie recente do comunismo, mas eu diria que o comunismo não deixa de ser uma seita religiosa, calcado na fé dogmática e totalmente contra a razão e a tolerância, que pede o debate e o questionamento. Marx é o Jesus dos comunistas, e se a religião é o ópio do povo, o marxismo é a cocaína.

Benjamin Franklin teria dito que "o jeito de ver pela fé é fechar os olhos da razão". De fato, os homens precisam exercitar mais a razão, e não aceitar dogmas de forma fanática e cega. Aquele que sequer aceita questionar sua fé, seus dogmas, sua crença e sua religião, perdeu a capacidade que o homem tem de raciocinar. Passa a ser um autômato que repete "verdades" reveladas, por mais absurdas que sejam. A humanidade ainda tem muito para avançar se enterrar de vez o fanatismo religioso, que tanta desgraça trouxe ao mundo.

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