sábado, fevereiro 28, 2009

OS "LIMITES" DA CIÊNCIA

Acho engraçado o modo como os religiosos e alguns filósofos, ditos espiritualistas ou metafísicos, pedem condições de igualdade com a ciência. Dizem que a ciência não pode se considerar “o único bastião da realidade" ou da verdade e que precisa reconhecer seus limites. Recomendações louváveis, mas que são anacrônicas ou dirigidas ao destinatário errado.
Hoje, definir a ciência como um repositório de verdades, representações precisas da realidade e que não admite seus limites não passa de cientificismo. Essa concepção fomentada em relação
à ciência é mais positivista que científica e foi abandonada como postura filosófica da ciência desde o início do século passado. É curioso notar que o positivismo tem tantos pontos em comum com as religiões que Comte se utilizou dele para fundar a sua própria. Portanto, não há nenhum problema para a ciência admitir que não é "o único bastião da realidade" e que tem seus limites. Isso não lhe afeta, a verdade não é um conceito que lhe faça falta; aliás, até lhe atrapalha. Agora, será que os religiosos e filósofos metafísicos estarão dispostos a agir da mesma forma? Desejarão ou mesmo poderão abandonar a convicção que os mantêm de que são “o único bastião da realidade", que são "o caminho, a verdade e a vida" e que seu método de conhecimento é ilimitado, já que provém de fonte onisciente? Poderia qualquer uma dessas religiões ou metafísicas de massa renunciar à pregação da verdade? Eles exigem que a ciência admita o que eles mesmos nunca tiveram a intenção de admitir. E nunca terão, pois quando abrirem mão de possuir a verdade revelada diretamente da divindade, não poderão mais segurar seus fiéis. Então, falam das limitações da ciência como se houvesse um conhecimento menos limitado que o dela; aquele que defendem, logicamente. Também apelam para que sejamos céticos quanto ao
que é dito cientifico. Tudo bem, nada demais; ser cético já é uma recomendação recorrente e útil para todo bom cientista ou livre pensador. O ceticismo não precisa ser incorporado à ciência, ele já é a base metodológica dela. Dizer para um cientista ser cético é o mesmo que dizer a um profissional que faça bem o seu trabalho. Chega a ser algo pouco educado para se falar. Logo, não haverá qualquer resistência de nossa parte em assumir uma postura cética, não temos nada a perder com isso, só a ganhar. Contudo, enquanto exortam para que sejamos cético em relação a ciência; eles se sentem no direito inalienável de usar o recurso da fé quando e onde bem quiserem. Querem que a lógica e a evidência pautem nossos pensamentos, mas quando esses requisitos não lhes favorece, acham perfeitamente legítimo recorrer aos seus dogmas e fechar o assunto como questão de crença e sentimento religioso.Sim, os religiosos e metafísicos desejam um dialogo com os céticos, mas tem que ser nos termos deles; onde o debate seria um jogo de cartas marcadas que só privilegiaria o discurso deles. Qualquer outra forma de debate equilibrado eles desqualificam como “um desrespeito à dimensão espiritual do conhecimento religioso" ou “incapacidade de transcender até o conhecimento metafísico”. Seja lá o que isso signifique.Bom, não importando que eles não façam da parte deles, faremos da nossa. Vamos apresentar os “limites” do conhecimento científico. Algo que, por sinal, sempre me preocupo em fazer ao início de minhas palestras sobre “aumento do aquecimento global”. E o faço bem ao gosto de nossos “críticos”, chamando de modo irônico nossas limitações de “pecados”.
Comecemos por fazer essa apresentação usando as palavras do físico Richard Feynman: "O conhecimento científico pode ser descrito como um grupo de asserções com graus variáveis de incerteza; algumas mais prováveis que outras, mas nenhuma absolutamente certa". Feynman está honestamente apontando o aspecto incerto do conhecimento científico; mas, lembrando o filme “Seven”, esse é um dos sete pecados capitais que a escolástica lhe imputa.
A escolástica é uma modalidade de pensamento cristão surgida na Idade Média, que tenta conciliar a racionalidade platônica e aristotélica com a concepção cristã de contato direto com a verdade revelada. Por extensão de sentido, passou a designar qualquer filosofia elaborada em função de uma doutrina religiosa; cujos seguidores perpetuam uma doutrina acrítica, ortodoxa,
tradicionalista e dogmática. Vamos então conhecer esses setes pecados capitais cometidos por nosso detetive segundo a concepção escolástica:

O conhecimento científico é verdadeiro?
Não, mas também não é falso.
Pretende ser plausível, o máximo que for capaz. Não se apresenta como verdade, se expressa por probabilidades. Portando, seu primeiro pecado capital é a probabilidade.O conhecimento científico é indubitável? Não, mas também não é duvidoso. Prima por ser dubitável, sendo inseparável da dúvida, que não o deixa se estagnar no dogmatismo. Portando, seu segundo pecado capital é a dúvida.

O conhecimento científico é perfeito?
Não, mas também não é malfeito.
Por ser imperfeito, é plenamente perfectível e, por ser uma obra aberta e inacabada, está sempre pronto para reformular-se. Portando, seu terceiro pecado capital é a imperfeição.

O conhecimento científico é definitivo?
Não, mas também não é indeciso.
O seu parecer é decisivo e não hesita, sabendo que seu risco de errar foi minimizado, dentro das circunstâncias, mas que não foi eliminado completamente. Portando, seu quarto pecado capital é a contingência.

O conhecimento científico é provado?
Não, mas também não é inválido.
Observação e experimentação fazem dele a representação da realidade mais provável criada até hoje. Mesmo assim, não pode fazer afirmações categóricas sobre ela. Portando, seu quinto pecado capital é a refutabilidade.

O conhecimento científico é descoberta?
Não, mas também não é ilusório.
Inventa modelos que tentam reproduzir, com êxito progressivo, o funcionamento da natureza; o que não evidencia serem descrições fiéis de como ela realmente é. Portando, seu sexto pecado
capital é a invenção.

O conhecimento científico é certo?
Não, mas também não é errado.
Tem um nível de incerteza que sempre está se esforçando por tornar o menor possível. Portando, seu sétimo pecado capital é a incerteza.

Agora, faço um desafio para que os defensores de outros métodos de conhecimento não científicos façam uma autocrítica tão profunda quanto a ciência é capaz de fazer. Ela não tem medos de suas limitações; aliás, sempre as enfrentou e analisou franca e metodologicamente. Esse é um de seus maiores méritos, o qual lhe dá a capacidade de reformular-se e lutar contra posições dogmáticas.


Postado por COSME ARISTIDES no O Contra Ataque em 2/27/2009 11:47:00 PM

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

POR QUE O CÉREBRO ANIMAL NÃO ACREDITA EM DARWIN ?

Cento e cinquenta anos após sua publicação, o Homo sapiens ainda tem dificuldade em acreditar nas descobertas de Darwin. As ideias de Darwin e Galileu sofrem da dificuldade do cérebro humano em aceitar conceitos abstratos que se chocam com observações diretas dos sentidos. Sabemos que a Terra gira ao redor do Sol e a cada dia observamos o Sol cruzar o céu. Se tivéssemos incorporado a descoberta de Galileu, observaríamos que na madrugada o horizonte desce, expondo nossa casa à luz solar. Ao longo do dia, à medida que o horizonte continua a descer, nossa cabeça aponta em direção ao Sol. Quando a Terra completa meio giro e estamos de ponta-cabeça, o horizonte se eleva e cobre o Sol que permanece imóvel. Apesar de esta ser uma descrição mais precisa do que ocorre, nosso cérebro se recusa a "ver" o desenrolar do dia desta maneira.

O motivo desta dificuldade é bem compreendido pelos darwinistas. Os sistemas visuais surgiram faz centenas de milhões de anos. Eles foram selecionados porque melhoram a sobrevivência dos animais, permitindo a localização de alimentos e predadores. Ao longo de milhões de anos esses sistemas se tornaram sofisticados e rápidos nas tarefas para as quais foram selecionados. Eles permitem que nosso cérebro, observando o movimento de uma presa (ou uma bola de futebol), seja capaz de ajustar nosso movimento de modo a interceptá-la no momento seguinte. Quando um jogador chuta a bola em direção à área, seu cérebro calculou que o atacante estará lá para recebê-la nos próximos segundos.

Ao fazer o passe, o jogador se beneficia de um sistema visual que não foi selecionado para jogar futebol. O sistema visual considera o corpo que habita como ponto de referência. Para essa parte de nosso cérebro, somos o centro do universo. Apesar de eficiente e rápido, nosso sistema visual é péssimo quando se trata de imaginar movimentos de um ponto de vista que não seja o nosso (por isso juízes de futebol têm dificuldade de identificar um impedimento e nos atrapalhamos ao explicar como a órbita da Lua e da Terra determinam as fases da Lua). Essa "deficiência" de nosso cérebro explica parcialmente porque grande parte da humanidade crê que o sol gira em torno da Terra.

Com o desenvolvimento do pensamento abstrato, nosso cérebro passou a dispor de dois mecanismos para compreender o mundo. Um, primitivo, baseado nas informações dos sentidos; outro, capaz de entender o mundo de forma analítica. Foi utilizando sua capacidade analítica e de abstração que Galileu descobriu que a imagem produzida por nosso sistema visual é parcial e distorcida. A Terra não é plana, o Sol não gira em torno de nós e não somos o centro do Universo.
Apesar de nossa mente racional "entender" as descobertas de Galileu, nosso cérebro insiste em nos informar que o Sol "sobe" detrás da montanha e "caminha" em direção ao céu. Algumas pessoas, tentadas por nosso cérebro animal, ainda suspeitam ser o centro do Universo.

Com a teoria da evolução de Darwin ocorre fenômeno semelhante. Desde que os cérebros e os sistemas visuais surgiram, eles têm observado outros seres vivos. E o que os olhos observam é que os seres vivos se comportam como se fossem guiados por uma vontade interna ou um plano de ação com objetivos definidos. As plantas crescem em direção ao Sol, as raízes buscam água. Aves constroem ninhos e alimentam filhotes com sementes que amadurecem quando eclodem os ovos. Nosso sistema visual nos informa que todo ser vivo segue um plano e cada parte desse plano parece ser um dos elementos de um projeto maior. É fácil imaginar como nosso cérebro criou o conceito de um ser superior.

Mas nossa mente também é capaz de pensar de maneira abstrata e Darwin observou os seres vivos de outra perspectiva. A ênfase é a transmissão das características de uma geração para a próxima, a competição por alimentos e a diversidade de seres vivos associada a cada ambiente. Observado o mundo sob esta nova perspectiva, Darwin evolui na ausência de um plano mestre. A transmissão das características herdadas, o acaso produzindo a diversidade e um processo de seleção que só permite a sobrevivência dos mais adaptados para cada ambiente é suficiente para explicar a evolução dos seres vivos. Por trás da ordem aparente está um processo randômico guiado pela seleção natural. Uma visão que contrasta com o que informa nossos sentidos.

Do mesmo modo como nosso cérebro animal se recusa a acreditar que o horizonte se abaixa todas as manhãs temos uma enorme dificuldade em aceitar a inexistência de um plano ou projeto que organize a vida no planeta. Vale o velho ditado, "o que os olhos não veem, o coração não sente" e a mente não aceita.

Este comportamento primitivo do nosso cérebro é semelhante a outras reações que herdamos de nossos ancestrais, como o medo hereditário do escuro e das cobras. Hoje sabemos que o cérebro que habita nosso crânio foi selecionado durante milhões de anos para garantir nossa sobrevivência nas florestas e, apesar de recentemente ter se tornado capaz de dominar a escrita, a fala, e o pensamento abstrato, nele ainda sobrevivem características que eram essenciais para nossos ancestrais.

A beleza da descoberta de Charles Darwin é que além de explicar a evolução da vida no planeta, ela permite que investiguemos nossa natureza animal. Isso significa aceitar que somos o produto de um processo evolutivo complexo e que ainda carregamos conosco grande parte do nosso passado. Aos poucos, ao longo das últimas décadas, estamos identificando essas características primitivas. Talvez, gradualmente, sejamos capazes de aprender a conviver e desfrutar dessas habilidades do mesmo modo como um jogador de futebol se aproveita do sistema visual desenvolvido quando habitávamos as planícies africanas. Este autoconhecimento biológico talvez seja nossa única chance de controlar nosso instinto predador e postergar a extinção do Homo sapiens.

Fernando Reinach*
*Biólogo - mailto:fernando@reinach.%20com

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090212/not_imp322441,0.php?

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

A DARWIN O QUE É DE DARWIN ...

O pescoço da girafa: Anterior a Darwin, o naturalista francês Lamarck elaborou a primeira teoria da evolução. Para ele, o pescoço da girafa teria esticado para colher folhas e frutos no alto das árvores. A seleção natural de Darwin explica melhor: em grandes períodos de seca, só os animais de pescoço mais longo conseguiam se alimentar, o que favoreceu a reprodução dos pescoçudos.

O medo do inferno: Muito religiosa, Emma, a mulher de Darwin, temia que o marido fosse para o inferno. Ela dava por certo que iria para o céu e sofria com a ideia de ficarem separados pela eternidade. À direita, a casa da família, nos arredores de Londres: nela, Darwin viveu e trabalhou por quarenta anos.

As ideias revolucionárias do naturalista inglês, que nasceu há 200 anos, são os pilares da biologia e da genética e estão presentes em muitas áreas da ciência moderna. O mistério é por que tanta gente ainda reluta em aceitar que o homem é o resultado da evolução.

Charles Darwin é um paradoxo moderno. Não sob a ótica da ciência, área em que seu trabalho é plenamente aceito e celebrado como ponto de partida para um grau de conhecimento sem precedentes sobre os seres vivos. Sem a teoria da evolução, a moderna biologia, incluindo a medicina e a biotecnologia, simplesmente não faria sentido. O enigma reside na relutância, quase um mal-estar, que suas ideias causam entre um vasto contingente de pessoas, algumas delas fervorosamente religiosas, outras nem tanto. Veja o que ocorre nos Estados Unidos. O país dispõe das melhores universidades do mundo, detém metade dos cientistas premiados com o Nobel e registra mais patentes do que todos os seus concorrentes diretos somados. Ainda assim, só um em cada dois americanos acredita que o homem possa ser produto de milhões de anos de evolução. O outro considera razoável que nós, e todas as coisas que nos cercam, estejamos aqui por dádiva da criação divina. Mesmo na Inglaterra, país natal de Darwin, o fato de ele ser festejado como herói nacional não impede que um em cada quatro ingleses duvide de suas ideias ou as veja como pura enganação. Na semana em que se comemora o bicentenário de nascimento de Darwin e, por coincidência, no ano do sesquicentenário da publicação de seu livro mais célebre, A Origem das Espécies, como explicar a persistente má vontade para com suas teorias em países campeões na produção científica?

Para investigar a razão pela qual as ideias de Darwin ainda são vistas como perigosas, é preciso recuar no passado. Quando o naturalista inglês pela primeira vez propôs suas teses sobre a evolução pela seleção natural, a maioria dos cientistas acreditava que a Terra não tivesse mais de 6.000 anos de existência, que as maravilhas da natureza fossem uma manifestação da sabedoria divina. A hipótese mais aceita sobre os fósseis de dinossauros era que se tratava de criaturas que perderam o embarque na Arca de Noé e foram extintas pelo dilúvio bíblico. A publicação de A Origem das Espécies teve o efeito de um tsunami na Inglaterra vitoriana. Os biólogos se viram desmentidos em sua certeza de que as espécies são imutáveis. A Igreja ficou perplexa por alguém desafiar o dogma segundo o qual Deus criou o homem à sua semelhança e os animais da forma como os conhecemos. A sociedade se chocou com a tese de que o homem não é um ser especial na natureza e, ainda por cima, tem parentesco com os macacos. Havia, naquele momento, compreensível contestação científica às novas ideias. Darwin havia reunido uma quantidade impressionante de provas empíricas – mas ainda restavam muitas questões sem resposta.

O primeiro exemplar a sair da gráfica foi enviado a sir John Herschel, um dos mais famosos cientistas ingleses vivos em 1859. Darwin tinha tanta admiração por ele que o citou no primeiro parágrafo de A Origem das Espécies. Herschel não gostou do que leu. Ele não podia acreditar, sem provas científicas tangíveis, que as espécies podiam surgir de variações ao acaso. Pressionado, Darwin disse que, se alguém lhe apontasse um único ser vivo que não tivesse um ascendente, sua teoria poderia ser jogada no lixo. O que se encontrou em profusão foram evidências da correção do pensamento de Darwin em seus pontos essenciais. Hoje, para entender a história da evolução, sua narrativa e mecanismo, os modernos darwinistas não precisam conjeturar sobre o funcionamento da hereditariedade. Eles simplesmente consultam as estruturas genéticas. As evidências que sustentam o darwinismo são agora de grande magnitude – mas, estranhamente, a ansiedade permanece.

Outros pilares da ciência moderna, como a teoria da relatividade, de Albert Einstein, não suscitam tanta desconfiança e hostilidade. Raros são aqueles que se sentem incomodados diante da impossibilidade de viajar mais rápido que a luz ou saem à rua em protesto contra a afirmação de que a gravidade deforma o espaço-tempo. Evidentemente, o núcleo incandescente da irritação causada por Darwin tem conotação religiosa. A descoberta dos mecanismos da evolução enfraqueceu o único bom argumento disponível para a existência de Deus. Se Ele não é responsável por todas essas maravilhas da natureza, sua presença só poderia ser realmente sentida na fé de cada indivíduo. Mas isso não explica tudo. Em 1920, ao escrever sobre o impacto da divulgação das ideias darwinistas, Sigmund Freud deu seu palpite: "Ao longo do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua autoestima. O primeiro foi constatar que a Terra não é o centro do universo. O segundo ocorreu quando a biologia desmentiu a natureza especial do homem e o relegou à posição de mero descendente do mundo animal". Pelo raciocínio do pai da psicanálise, a rejeição à teoria da evolução seria uma forma de compensar o "rebaixamento" da espécie humana contido nas ideias de Copérnico e Darwin.

O biólogo americano Stephen Jay Gould, um dos grandes teóricos do evolucionismo no século XX, morto em 2002, dizia que as teorias de Darwin são tão mal compreendidas não porque sejam complexas, mas porque muita gente evita compreendê-las. Concordar com Darwin significa aceitar que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra. Disse a VEJA o biólogo americano David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton: "As grandes ideias e teorias são aceitas ou rejeitadas popularmente por suas consequências, não pelo seu valor intrínseco. Infelizmente, a evolução é percebida por muitos como uma arma projetada para destruir a religião, a moral e o potencial dos seres humanos". Uma pesquisa publicada pela revista New Scientist sobre a aceitação do darwinismo ao redor do mundo mostra que os mais ardentes defensores da evolução estão na Islândia, Dinamarca e Suécia. De modo geral, a crença na evolução é inversamente proporcional à crença em Deus. Mas a pesquisa encontrou outra configuração interessante: os habitantes dos países ricos acreditam menos em Deus que aqueles que vivem em países inseguros. Isso pode significar que a crença em Deus e a rejeição do evolucionismo são mais intensas nas sociedades sujeitas às pressões darwinistas, como escreveu a revista Economist.

A teoria da evolução causa mal-estar em muita gente – mas só algumas confissões evangélicas converteram o darwinismo em um inimigo a ser combatido a todo custo. Como essas reli-giões são poderosas nos Estados Unidos, é lá que se trava o mais renhido combate dessa guerra santa. Ciência e religião já andaram de mãos dadas pela maior parte da história da humanidade. Mas esse nó se desatou há dois séculos e Darwin foi um dos responsáveis por esse divórcio amigável, com nítidas vantagens para ambos os lados.

Desde o ano passado, o bordão entre os criacionistas americanos é "liberdade acadêmica". A ideia que tentam passar é que o darwinismo é apenas uma teoria, não um fato, e ainda por cima está cheio de lacunas e é carente de provas conclusivas. Sendo assim, não há por que Darwin merecer maior destaque que o criacionismo. O argumento é de evidente má-fé. Em seu significado comum, teoria é sinônimo de hipótese, de achismo. A teoria da evolução de Darwin usa o termo em sua conotação científica. Nesse caso, a teoria é uma síntese de um vasto campo de conhecimentos formado por hipóteses que foram testadas e comprovadas por leis e fatos científicos. Ou seja, uma linha de raciocínio confirmada por evidências e experimentos. Por isso, quando é ensinado numa aula de religião, o gênesis está em local apropriado. Colocado em qualquer outro contexto, só serve para confundir os estudantes sobre a natureza da ciência.

A ciência não tem respostas para todas as perguntas. Não sabe, por exemplo, o que existia antes do Big Bang, que deu origem ao universo há 13,7 bilhões de anos. Nosso conhecimento só começa três minutos depois do evento, quando as leis da física passaram a existir. Os cientistas também não são capazes de recriar a vida a partir de uma poça de água e alguns elementos químicos – o que se acredita ter acontecido 4,5 bilhões de anos atrás. A mão de Deus teria contribuído para que esses eventos primordiais tenham ocorrido? Não cabe à ciência responder enquanto não houver provas científicas do que aconteceu. O fato é que a luta dos criacionistas contra Darwin nada tem de científica. Em sua profissão de fé, eles têm o pleno direito de acreditar que Deus criou o mundo e tudo o que existe nele. Coisa bem diferente é querer impingir essa maneira de enxergar a natureza às crianças em idade escolar, renegando fatos comprovados pela ciência. Essa atitude nega às crianças os fundamentos da razão, substituindo-os pelo pensamento sobrenatural.

Manda o bom senso que não se misturem ciência e religião. A primeira perscruta os mistérios do mundo físico; a segunda, os do mundo espiritual. Elas não necessariamente se eliminam. Há cientistas eminentes que creem em Deus e não veem nisso nenhuma contradição com o darwinismo. O mais conhecido deles é o biólogo americano Francis Collins, um dos responsáveis pelo mapeamento do DNA humano. Diz ele: "Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada. A Bíblia não é um livro científico. Não deve ser levado ao pé da letra". A Igreja Católica aceitou há bastante tempo que sua atribuição é cuidar da alma de seu 1 bilhão de fiéis e que o mundo físico é mais bem explicado pela ciência. O Vaticano até organizará em março o simpósio "Evolução biológica: fatos e teorias – Uma avaliação crítica 150 anos depois de A Origem das Espécies".

Em A Origem das Espécies, num raciocínio que cabe em poucas linhas mas expressa ideias de alcance gigantesco, Darwin produziu uma revolução que alteraria para sempre os rumos da ciência. Ele mostrou que todas as espécies descendem de um ancestral comum, uma forma de vida simples e primitiva. Darwin demonstrou também que, pelo processo que batizou de seleção natural, as espécies evoluem ao longo das eras, sofrendo mutações aleatórias que são transmitidas a seus descendentes. Essas mutações podem determinar a permanência da espécie na Terra ou sua extinção – dependendo da capacidade de adaptação ao ambiente. Uma década depois da publicação de seu livro seminal, o impacto das ideias de Darwin se multiplicaria por mil com o lançamento de A Descendência do Homem, obra em que mostra que o ser humano e os macacos divergiram de um mesmo ancestral, há 4 milhões de anos.

O embate entre evolucionistas e criacionistas teria causado um desgosto profundo a Darwin, que era religioso e chegou a se preparar para ser pastor da Igreja Anglicana. Esse plano foi interrompido pela fantástica aventura que protagonizou entre 1831 e 1836, em viagem a bordo do Beagle, um pequeno navio de exploração científica, numa das passagens mais conhecidas da história da ciência. Aos 22 anos, Darwin embarcou no Beagle para servir de acompanhante ao capitão do barco, o aristocrata inglês Robert Fitzroy. Durante a viagem, que se estendeu por quatro continentes, Darwin deu vazão à curiosidade sobre o mundo natural que o acompanhava desde a infância. Até a volta à Inglaterra, havia recolhido 1 529 espécies em frascos com álcool e 3 907 espécimes preservados. Darwin escreveu um diário de 770 páginas, no qual relata suas experiências nos lugares por onde passou. No Brasil, visitou o Rio de Janeiro e a Bahia, extasiando-se com a biodiversidade da Mata Atlântica – mas ficou horrorizado com a escravidão e com a maneira como os escravos eram tratados.

Durante a viagem, Darwin fez as principais observações que o levariam a formular a teoria da evolução pela seleção natural. Grande parte delas teve como cenário as Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico. Lá, reparou que muitas das espécies eram semelhantes às que existiam no continente, mas apresentavam pequenas diferenças de uma ilha para outra. Chamaram sua atenção, principalmente, os tentilhões, pássaros cujo bico apresentava um formato em cada ilha, de acordo com o tipo de alimentação disponível. A única explicação para isso seria que as primeiras espécies de animais chegaram às ilhas vindas do continente. Depois, desenvolveram características diferentes, de acordo com as condições do ambiente de cada ilha. Era a prova da evolução. Mais recentemente, ao estudarem os mesmos tentilhões das Ilhas Galápagos, grupos de biólogos observaram a evolução ocorrer em tempo real. Os pássaros evoluíam de um ano para outro, de acordo com as mudanças nas condições climáticas da ilha. Darwin, que definiu a evolução como um processo invariavelmente longo, através das eras, ficaria espantado com as novas descobertas em seu parque de diversões científico.

Após o lançamento de A Origem das Espécies, um best-seller que esgotou rapidamente cinco edições, os cientistas não demoraram a aceitar a proposta de que as plantas e os animais evoluem e se modificam ao longo das eras. Na verdade, essa ideia chegou a ser formulada por outros cientistas, inclusive pelo avô de Darwin, o filósofo Erasmus Darwin. A noção de que a evolução das espécies se dá pela seleção natural, no entanto, é original de Charles Darwin, e só foi aceita integralmente depois da descoberta da estrutura do DNA, em 1953. Darwin atribuiu a transmissão de características entre as gerações a células chamadas gêmulas, que se desprenderiam dos tecidos e viajariam pelo corpo até os órgãos sexuais. Lá chegando, seriam copiadas e passadas às gerações seguintes. Os estudos feitos com ervilhas pelo monge austríaco Gregor Mendel na segunda metade do século XIX, mas aos quais a comunidade científica só deu importância no início do século XX, estabeleceram a ideia básica da genética moderna, a de que as características de cada indivíduo são transmitidas de pais para filhos pelo que ele chamou de "fatores", e hoje se conhece como genes. Com as ervilhas de Mendel, o processo concebido por Darwin teve comprovação científica. A descoberta da dupla hélice do DNA, pelos cientistas James Watson e Francis Crick, em 1953, finalmente esclareceu o mecanismo por meio do qual a informação genética é transmitida através das sucessivas gerações. Hoje, os biólogos se dedicam a responder a questões ainda em aberto no evolucionismo, como quais são exatamente as mudanças genéticas que provocam as adaptações produzidas pela seleção natural. É espantoso que, enquanto continuam a desbravar territórios na ciência, as ideias de Darwin ainda despertem tanto temor.

Gabriela Carelli
Revista Veja - 11/02/2009